Escolas mal-equipadas podem aumentar desigualdades, diz estudo
Paris, 28/05/2008 - Um novo estudo do Instituto de Estatísticas da UNESCO (UIS) destaca o forte efeito da desigualdade social em sistemas de educação fundamental em muitos países e o desafio de oferecer a todas as crianças oportunidades de aprendizagem iguais.
Intitulado Uma Visão dentro de Escolas 'Primárias' (até a quarta série do ensino fundamental, no caso do Brasil), o relatório, anunciado hoje, apresenta os resultados de uma pesquisa única realizada em 11 países na América Latina, Ásia e norte da África *.
Como parte do programa de Indicadores da Educação Mundial (WEI), os países se envolveram no desenvolvimento e na realização da pesquisa a fim de examinar os fatores que formam a qualidade e a igualdade da educação primária.
Professores da quarta série e diretores de mais de 7.600 escolas responderam questionários detalhados sobre como as escolas funcionam, como os professores ministram as aulas, as condições de aprendizagem e o apoio disponível aos professores e diretores. Os dados foram coletados e analisados entre 2005 e 2007.
"Essa pesquisa oferece uma riqueza de dados considerável. Por um lado, vemos como faltam recursos básicos nas escolas - água encanada ou eletricidade - que são oferecidos normalmente nos países desenvolvidos", diz Hendrik van der Pol, diretor do Instituto. "Mas os dados também revelam como a desigualdade social afeta a oportunidade de uma criança aprender. Claramente, nenhum país - rico ou pobre - está imune a essas disparidades."
O relatório revela grandes lacunas em recursos entre escolas rurais e urbanas. Na Índia, 27% das escolas em vilarejos possuem eletricidade, comparado com 76% das escolas em pequenas ou grandes cidades. Somente cerca de metade dessas escolas rurais possui banheiros suficientes para meninas e menos de 4% possuem um telefone.
No Peru, menos da metade das escolas da área rural está equipada com eletricidade, biblioteca ou toaletes para meninos ou meninas. Já em áreas urbanas, quase todas as escolas possuem eletricidade, 65% possuem banheiros suficientes e 74%, bibliotecas.
Em geral, a estruturas de escolas em vilarejos apresentam uma necessidade maior de reparo, de acordo com os resultados da pesquisa. No Peru e nas Filipinas, por exemplo, diretores nas áreas rurais relatam que aproximadamente 70% dos seus alunos freqüentam escolas que necessitam de grandes reformas ou de uma reconstrução completa. No Brasil, metade dos alunos em áreas rurais freqüenta salas de aula deterioradas, comparado com menos de 30% dos alunos em estabelecimentos urbanos.
"É perturbante pensar que alunos recebem mais ou menos recursos de acordo com o lugar em que vivem. Mas isso é só uma parte da estória," diz Yanhong Zhang, um dos autores do relatório. "O estudo mostra que alunos em vilarejos possuem maior probabilidade de serem oriundos de lares desprivilegiados. Então, as desigualdades em recursos escolares estão vinculadas a seus status sócio-econômicos. Na verdade, essas crianças estão sujeitas a uma dupla desvantagem - a carência de recursos em casa e na escola."
Na pesquisa, professores e diretores de escolas foram solicitados a avaliar os históricos dos seus alunos, baseando-se em uma série de indicadores: da renda familiar e nível de educação dos pais à freqüência com a qual essas crianças pulavam refeições. As informações serviram como base para um índice usado para examinar os vínculos entre o status sócio-econômico e as condições escolares, incluindo o ambiente de aprendizagem.
Um dos fatores mais importantes que formam os ambientes de aprendizagem é o envolvimento dos professores e alunos. De acordo com o estudo, professores e diretores que trabalham em escolas que atendem crianças em situação de desvantagem social costumam relatar níveis mais baixos de motivação de alunos, como também mais problemas comportamentais. Esse achado foi mais marcante em países da América Latina e na comparação entre escolas públicas e privadas.
Tais resultados do estudo são baseados em percepções subjetivas e, por conseguinte, devem ser interpretados com cautela. As crianças em situação de desvantagem são, de fato, estudantes menos motivados? Ou as difíceis condições de trabalho dos professores influem no olhar que eles têm dos alunos? Para os autores do estudo, a situação é preocupante nos dois casos. Percepções negativas podem levar a um círculo vicioso nos quais professores, pais e estudantes esperam e tiram menos proveito da escola.
O estudo aborda como esse espiral de expectativas reduzidas pode influenciar o ambiente de ensino e a aprendizagem. Ele oferece informações detalhadas sobre diferentes questões: do grau de empenho das escolas para conseguir que seus alunos desenvolvam ao máximo seu potencial escolar ao interesse dos pais pelos estudos de seus filhos.
Os dados indicam que as condições de trabalho são consideradas mais difíceis em escolas que recebem um número maior de estudantes desfavorecidos. Nelas, os professores se encontravam mais insatisfeitos com o salário, com o apoio prestado pelos pais, com o tamanho das turmas e com o acesso a material escolar.
A pesquisa também incluiu um questionário específico para avaliar em que medida são oferecidas aos estudantes oportunidades reais para o aprendizado da leitura. Na maioria dos países, professores com estudantes motivados e pertencentes a classes sociais favorecidas tendem a fazer uso de materiais e atividades mais inovadoras, assim como de métodos de ensino mais criativos. Por outro lado, professores com estudantes de menor renda descrevem seus estilos de ensino como menos exigentes e mais freqüentemente baseados na memorização, por repetição.
Segundo os autores, há uma necessidade urgente de destinação de mais recursos às escolas presentes em comunidades menos privilegiadas. Reformas em estruturas ou bibliotecas, entretanto, não asseguram que todas as crianças atinjam seu potencial escolar. São necessárias políticas direcionadas para melhorar o ambiente de aprendizado de crianças e as condições de trabalho de professores e diretores. A desigualdade envolve uma série de problemas que afetam a sociedade de forma abrangente. Com apoio adequado, porém, as escolas podem oferecer mais oportunidades a seus estudantes.
O estudo completo, em inglês, e seu resumo (inglês e espanhol) podem ser acessados na página da UNESCO.
* Argentina, Brasil, Chile, Índia, Malásia, Paraguai, Peru, Filipinas, Sri Lanka, Tunísia e Uruguai.
Dados do estudo
Mais de um em cada cinco estudantes estavam em escolas sem água corrente no Paraguai, Filipinas e Sri Lanka.
Nenhum país contava com biblioteca em cada uma de suas escolas. Nas Filipinas, Índia, Paraguai, Peru, Sri Lanka e Tunísia, menos da metade das crianças estava em escolas com telefone.
Pouco mais da metade dos estudantes que foram objeto da pesquisa estavam em escolas com computador para uso administrativo. Poucos freqüentavam escolas com esse recurso na Índia, Paraguai, Sri Lanka e Tunísia. No Chile, foi registrado um número expressivo de escolas equipadas com computadores para uso de alunos e com acesso à Internet
Na Tunísia, pais de um terço dos alunos foram solicitados a comprar livros. O mesmo ocorreu com 24% dos alunos na Argentina e quase 10% na Índia. Sri Lanka foi o único país a oferecer livros gratuitamente a todos seus estudantes.
Dois terços ou mais de alunos na Argentina, Brasil, Malásia, Tunísia e Uruguai estavam em escolas onde menos de 70% dos professores lecionavam por pelo menos cinco anos, o que indica problema de estabilidade da equipe docente.
A média de horas letivas anuais varia entre 754 no Paraguai e mais de 1.000 no Chile, Índia, Malásia e Filipinas. As disparidades foram mais fortes no Chile, Índia e Filipinas, onde as diferenças chegaram a 440 ou mais entre alunos de diferentes escolas.
Segundo a pesquisa, o perfil característico do professor de quarta série é do profissional que trabalha 23 horas semanais em uma única escola. A carga global de horas letivas do educador desta série varia de 14 horas (Malásia) a 31 horas (Chile e Filipinas)
Com exceção da Índia, Malásia e Sri Lanka, a maioria dos professores expressou insatisfação com seus salários. Índia e Sri Lanka também foram os únicos países onde mais da metade dos alunos teve professores que consideraram seus status profissionais mais altos do que os de outros profissionais com qualificações educacionais semelhantes.
Sobre o Brasil (1ª a 4ª série)
1) Localização das escolas:
54% das escolas "primárias" eram rurais, embora representassem só 23% do total de matrículas de 1ª a 4ª série.
2) Escolas públicas e privadas:
10% dos estudantes no Brasil estavam em escolas privadas
3) Gastos:
Enquanto no Chile os gastos com estudantes eram de 2.120 dólares por aluno/ano, no Brasil estavam em 1.159 dólares por aluno/ano.
4) Recursos escolares:
Metade dos alunos de escolas em pequenos povoados ou áreas rurais e mais de 25% dos alunos em cidades assistia a aulas em prédios considerados em más condições.
No Brasil e em outros seis países, mais de 10% dos alunos assistia aulas em escolas que careciam de água potável.
As tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) estão ganhando terreno em forma progressiva, mas os computadores são mais usados em trabalhos administrativos. O Brasil está entre os países que mostraram sólidos avanços no desenvolvimento de sistemas de gestão baseados em computadores.
O estudo demonstra uma grande disparidade na dotação de recursos dentro dos países, especialmente no caso de algumas regiões do Brasil, Filipinas e Tunísia.
5) Alunos: condição sócio-econômica do estudante incide fortemente nos êxitos educativos.
Um em cada dois estudantes estudava em escolas cuja maioria ou todos os alunos eram provenientes de famílias com pais que não haviam completado a educação primária.
70% dos alunos da escola "primária" têm menos de 25 livros em casa
Alunos da escola "primária" têm 800 horas/aula por ano. No Chile são 1.200 horas/aula por ano.
6) Professores:
No Brasil, Argentina e Uruguai, mais de 90% dos estudantes primários recebiam instrução de professoras;
7) Diretores:
As mulheres representavam 84% dos professores
8) Condições laborais dos docentes:
A proporção de alunos de 4º série cujos professores ensinavam em mais de uma escola chega a 29% no Brasil.
9) Governabilidade e autonomia da escola:
No Brasil, Chile, Índia, Peru e Tunísia, mais de 75% dos alunos estudavam em escolas que contavam com conselhos escolares.

