Você está aqui: Página Inicial Mídia Opinião Discursos e Palestras do Representante da UNESCO no Brasil Ano de 2004 Pronunciamento: "Seminario FEBRACE"

Pronunciamento: "Seminario FEBRACE"


São Paulo, 09 de março de 2004 


O Seminário que se inicia reveste-se de grande valor para o presente e o futuro do País. Criatividade, inovação e desenvolvimento sustentável constituem elementos indispensáveis para a própria sobrevivência da espécie humana sobre a Terra. Em situações históricas que requerem cada vez menos soluções padronizadas, em sistemas de produção que abandonaram ou tendem cada vez mais a abandonar o taylorismo e o fordismo, a criatividade e a inovação, em vez da rotina e da padronização, passam a ser os meios por excelência para dar soluções satisfatórias aos problemas do nosso tempo.

Por sua vez, o lado sombrio da modernidade, na expressão de Giddens, manifesto pela degradação do meio ambiente, pela alienação do trabalho, pelo totalitarismo e pela industrialização da guerra, torna duvidoso o futuro do mundo se mantido o atual modelo. Haja vista que, conforme estudo preparado para a Conferência de Joanesburgo (2002), se cada habitante do Planeta se comportasse como o habitante médio de um país de alta renda seriam necessários 2,6 planetas para satisfazer às necessidades de todos. Não bastam mais a aprendizagem da tradição ou a capacidade crítica em face do que já foi elaborado. Embora sem desprezar a cumulatividade da cultura, as circunstâncias devem ser enfrentadas com a geração do novo. Um novo que precisa ser construído a partir de uma nova ética, de uma intersolidariedade como pede Edgar Morin. O planeta segundo esse pensador, exige um pensamento policêntrico nutrido das culturas do mundo. Educar para este pensamento é a finalidade da educação do futuro, que deve trabalhar na era planetária, para a identidade e a consciência terrenas.

Não podemos prosseguir no rumo auto-destrutivo que traçamos especialmente a partir da primeira Revolução Industrial. Precisamos mudar para não apenas sobreviver, mas viver. Nisto não há exagero e, sim, a constatação do esgotamento de modos de vida que serão particularmente afetados a partir do momento em que fontes de energia como o petróleo alcançarem o seu pico e começarem a marcha descendente da produção. Eis porque o mundo, na perspectiva de ser atingido no seu nervo, tanto necessita do novo.

Para enfrentar tais desafios é necessário um sólido tripé, formado pela educação, ciência e tecnologia. A educação, conforme preconizavam filósofos já no início do século passado, precisa mirar o futuro e não simplesmente formar o homem para o passado. Hoje a educação precisa vencer o hiato entre as gerações, que as novas formas de convivência (ou a falta dela) está forjando, e, ao mesmo tempo, preparar as pessoas para um mundo que ainda não existe. Ter uma visão do futuro, passou a ser uma condição para administrar o presente. Por isso mesmo, a produção e a disseminação do conhecimento converteram-se em requisitos fundamentais para enfrentar os desafios do presente e projetar cenários mais promissores. Não se trata, portanto, de apenas ressaltar a importância da educação, da ciência e da tecnologia. É preciso mais do que isso para garantir a existência do futuro. Torna-se necessário associar ao processo de inovação, uma nova postura política para assegurar o uso ético do conhecimento e o sentido social e humano de suas aplicações, conforme reivindicou a Declaração da Unesco de Budapeste sobre Ciência e Desenvolvimento.

Por outro lado, num país como o Brasil, que enfrenta desafios difíceis e multi-dimensionais, o tripé educação-ciência-tecnologia-indissociável e indivisível- precisa tornar-se de forma urgente política de estado, de forma a ficar livre das oscilações políticas que ocorrem com freqüência. Essa é uma condição fundamental para se evitar os erros políticos do passado que deixaram à margem esse tripé, legando às gerações atuais um tributo enorme, chegando mesmo a ser considerado quase que intransponível.

Nunca será demais repetir que, se no passado, ao tempo das primeiras revoluções industriais, as manufaturas dependiam basicamente de recursos naturais e de mão-de-obra pouco qualificada e barata para atender às tecnologias de trabalho intensivo, hoje a realidade mudou drasticamente. Um país rico em recursos naturais, não está mais fadado à riqueza. O ouro da modernidade não está mais em baixo da terra, mas se esconde em cada criança e em cada jovem que anseiam e esperam por uma escola criativa para faze-lo aflorar.

Hoje as indústrias baseadas nos recursos naturais têm menor rendimento e são, por isso, exportadas para o Terceiro Mundo, enquanto o maior crescimento se situa nas indústrias baseadas na potência do cérebro humano: microeletrônica, biotecnologia, telecomunicações, construção de aeronaves, máquinas ferramentas e robótica, além de computadores. Como oportunamente afirmou Castells, pela primeira vez na história, a mente humana é uma força direta da produção, e não apenas um elemento decisivo no sistema produtivo.

Essas indústrias, em princípio, podem ser localizadas em qualquer lugar da Terra, independente do suprimento de matérias-primas, porém, só florescem onde existe o referido tripé da educação, da ciência e da tecnologia. Não se pode perder de vista o elevado tributo cognitivo da globalização. Além disso, os custos são altos e é longo o tempo de maturação, sem o que, não será possível candidatar-se e poder alinhar-se com os líderes do mercado internacional. Thurow menciona que a empresa européia Airbus levou mais de 20 anos e gastou mais de 26 bilhões de fundos públicos para se colocar à altura da indústria aeronáutica norte-americana. O retorno, entretanto, neste e em outros casos, compensa, sob a forma de empregos diretos e indiretos, salários, arrecadação fiscal, afastamento de poluentes e outros benefícios, de tal modo que os países desenvolvidos reservam estes filões para si. Esta geografia não se desenha por acaso, pois são eles que investem mais recursos para oferecer uma educação mais extensa e de melhor qualidade à sua população e mais aplicam em pesquisa e desenvolvimento.

Ainda Thurow lembra que os industriais têxteis da Nova Inglaterra se dispuseram a cofinanciar a educação pública compulsória porque precisavam de trabalhadores melhor qualificados. Defender o ensino primário para todos era uma posição de ousada vanguarda, que suscitava dúvidas: qual seria o efeito da escolaridade sobre a obediência das massas? Seria a escola um fator de rebelião das mesmas? Hoje tais fatos adquirem um tom arqueológico. As mais promissoras atividades industriais e de serviços são as que requerem trabalhadores pós-graduados, com uma formação sofisticada, capazes de gerar conhecimentos científicos e tecnológicos. Todos, de cima a baixo, devem compreender e internalizar as estratégias da empresa e se beneficiar das novas tecnologias para realizar as funções de comunicação, controle e comando.

Sob a perspectiva destas mudanças o Brasil e a América Latina não estão bem. Em obra recente, editada pela UNESCO, Martin Carnoy indaga se a educação no Continente está preparando a sua força de trabalho para as economias do século XXI. A resposta, infelizmente, é negativa, em face da escolaridade mais curta, da pior qualidade da escolarização e pelos modestos investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Neste sentido, a América Latina com freqüência está atrás da Ásia e das economias menos desenvolvidas da Europa. E o Brasil se situa desfavoravelmente sob muitos aspectos no âmbito da América Latina.

Houve um período da história em que o nacionalismo-desenvolvimentista via nas chaminés das indústrias uma incoercível força liberadora. A superação das economias primário-exportadoras, a industrialização substitutiva de importações, a urbanização e a mobilidade social eram as vias para superar o subdesenvolvimento. Este projeto histórico foi perseguido com relativa consistência e alcançou grandes resultados. Orgulhávamo-nos das nossas matérias-primas e da rapidez com que se formava um operário para o regime fordista. Éramos felizes com indústrias geralmente poluentes que o Ocidente nos exportava e que recebíamos com incentivos fiscais. Contudo, os interesses estabelecidos cegaram a visão de futuro. Com isso, descuramos gravemente da educação e da geração do conhecimento para ficarmos com a fatia menos produtiva das atividades econômicas. Se era difícil a luta pelas indústrias de base, hoje a conquista da sociedade do conhecimento e da nova economia da informação é mais árdua e demorada.

Os desafios das atividades econômicas sustentadas pela força do cérebro humano e, mais ainda, a necessidade desta força superar os desafios da modernidade, rumo ao desenvolvimento sustentável, implicam uma educação ampla, extensa e profunda, como uma das pernas do tripé a que nos referimos. Uma ampla pesquisa sobre o ensino médio feita pela Unesco em 2003, por solicitação do Ministério da Educação, revelou a situação precária do ensino de ciências, sendo que apenas 43,1% das escolas possuem laboratórios e, em inúmeros casos não chega a utiliza-los por falta de professores. Na rede pública, a proporção de que os laboratórios não são usados chega a 92% em Macapá e 89,9% em Salvador.

O processo educacional deve estar preparado para cultivar o desenvolvimento científico em todas as áreas, inclusive para os estudantes de outros campos que não o das ciências. É urgente também superar o divisor digital. Tais temas são objeto de documentos clássicos da UNESCO sobre a Sociedade de Informação para Todos (1995), a Agenda para a Ciência (Budapeste, 1999) e a Declaração de Santo Domingo (1999) sobre o mesmo tema.

É certo que a ênfase à ciência e à tecnologia não implica o reducionismo curricular, com o abandono ou a minimização das humanidades. Ao contrário, a visão de hoje para o pensamento e a ação em geral e, portanto, para os currículos é a abrangência de perspectivas e não a compartimentação. Para melhor compreender o mundo, ser mais criativo e aplicar mais adequadamente as ciências e as tecnologias, já não cabe a mentalidade de outrora, cada vez mais especializada, mas a perspectiva inter e transdisciplinar. Todavia, é certo também que a crise da falta de professores de ciências devido à péssima situação das condições de trabalho e remuneração docente começa a comprometer a qualidade da força de trabalho demandada pela globalização.

Ontem bastava percorrer analiticamente um terreno ou ter uma visão abrangente do mesmo. Hoje é preciso ter uma visão integrada do ensino. Portanto, quando se trata do ensino e produção de ciências e tecnologias não cabe mais a resposta parcial à crise do Sputnik, no final dos anos 50, quando se colocaram as ciências na cabeça da fila dos currículos escolares norte-americanos. O processo de globalização ampliou e diversificou o campo cognitivo. As ciências continuam no topo da hierarquia, como também a língua nacional e as estrangeiras, as ciências humanas e sociais, e bem assim, as demandas curriculares transversais de ética e cidadania. A globalização exige ainda mapas cognitivos integrados, cujo desenvolvimento requer escolas e professores de qualidade. Em última análise, importa uma educação básica de qualidade para todos, que se tornou uma urgência urgentíssima, que condiciona e projeta o futuro dos avanços científicos e tecnológicos no Brasil. Ilhas de excelência só se potencializam pela aumento do número de anos de escolarização média dos trabalhadores que, em alguns países, já passam de 10 anos.

A missão da América Latina neste momento, em que fica em desvantagem quanto a outras áreas do mundo, parece ciclópica - e verdadeiramente é. Parece que nossos recursos são poucos diante da enormidade das tarefas - e verdadeiramente são. Por isto mesmo, é preciso recuperar o tempo perdido, pois não nos demos conta de que, silenciosamente os modelos se esgotavam e não nos empenhávamos, com criatividade e capacidade inovadora, para tentar outros caminhos. Ainda, assim, porém, recuperar o tempo é plenamente possível e trará seus admiráveis frutos. Desde que não percamos nem um momento e empenhemos nossas forças num projeto histórico com continuidade, aumentando os investimentos e elevando as políticas de educação, ciência e tecnologia ao status de políticas de Estado, de forma a ficar livre das oscilações políticas como queria o pioneiro Fernando de Azevedo.

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