Você está aqui: Página Inicial Mídia Opinião Discursos e Palestras do Representante da UNESCO no Brasil Ano de 2003 Pronunciamento: "Abrindo Espaços para uma Nova Educação " - São Paulo, 26 de maio de 2003.

Pronunciamento: "Abrindo Espaços para uma Nova Educação " - São Paulo, 26 de maio de 2003.

São Paulo, SP , 26 de maio de 2003

 

No marco do conjunto de idéias e mesmo de utopias que preside há mais de meio século a luta mundial da UNESCO por uma sociedade mais solidária, a assinatura com o Governo do Estado de São Paulo e com a Agencia Brasileira de Cooperação, do presente projeto de cooperação técnica, representa não apenas um avanço conceitual em políticas de desenvolvimento humano, como também serve de indicador de uma nova consciência que está surgindo na gestão pública brasileira com o propósito de colocar o Estado como ator insubstituível na defesa dos direitos de cidadania.

E quando falo em direitos de cidadania, fica implícito também o fortalecimento da consciência em relação aos deveres. O par dialético direito-deveres compõe o quadro de razões fundantes de um moderno projeto de cidadania. Por isso mesmo, o próprio título do projeto - Escola da Família - indica a diretriz fundamental que presidirá as ações previstas por esse Acordo. A educação começa na família, onde se sedimentam as bases para o seu prosseguimento na escola e ao longo de toda a vida. Nessa trajetória, sobretudo nas faixas etárias que abrangem a infância e a juventude, a integração família-escola-comunidade é decisiva para a consolidação de valores éticos indispensáveis a uma visão solidária da vida em sociedade.

Por visão solidária da vida deve ser entendido o respeito às diferenças e às diversas concepções de mundo consagradas pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, promulgada em 1948. Só existe solidariedade no reconhecimento do outro. Caso contrário, corre-se o risco da indiferença que permeia, dilui e adia a solução das diversas formas de discriminação social e de egoísmo corporativo.

A cooperação entre a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo e a UNESCO que ora se formaliza tem o seu foco no jovem e no adolescente, mediante um conjunto de ações educativas e culturais que favoreçam o desenvolvimento do protagonismo juvenil e ajude o jovem a estruturar o seu projeto de vida num mundo de crescentes interrogações e descrenças. Mas por vivermos mesmo numa sociedade permeada por interrogações quanto ao futuro, é que sobressai a relevância dessa cooperação, pois precisamos com a maior urgência buscar respostas que restabeleçam a crença e valorizem a subjetividade. Nesse sentido, a inserção do jovem em processos de busca compartilhada de respostas possíveis, seguramente o colocará como sujeito protagonista na luta pelo advento de sociedades mais humanas e edificadoras de uma nova ética.

Numa perspectiva existencialista, como dizia Jean-Paul Sartre, a pessoa primeiramente existe, se descobre, surge no mundo e só depois se define e se lança para o futuro. Cabe à educação criar as condições para a construção de um projeto consciente do futuro. E não será deixando os jovens à margem que isso ocorrerá. A escola precisa rever-se e enxergar as transformações reestruturantes da vida contemporânea.

Quando a UNESCO, por intermédio de inúmeras pesquisas realizadas no Brasil sobre juventude, violência e cidadania, constatou o aumento da criminalidade e da violência entre os jovens nos fins de semana, concluiu de imediato que se as escolas abrissem suas portas para a comunidade aos sábados e domingos, poderia dar uma contribuição importante para preencher de forma mais significativa a necessidade que tem a juventude por experiências novas e de vanguarda que, via de regra, têm sido atendidas por vários outros mecanismos empobrecedores da vida, como as gangues, galeras, chegados e rappers e os espetáculos de violências que são veiculados pela televisão e outros meios de comunicação.

Assim sendo, o Projeto Escola da Família, tendo seu foco nos jovens e utilizando como metodologia, entre outras, a abertura de escolas nos finais de semana, tornando-a uma agência de cultura que se converta em ponto de encontro entre a comunidade escolar, a família, a juventude e diversos outros segmentos, visando a participação ativa em diversas atividades culturais e esportivas, poderá imprimir ao processo educativo uma nova perspectiva, certamente mais consentânea com a natureza das mudanças em curso.

Essa nova perspectiva ensejará a possibilidade de ajudar o jovem e também a sua família a amadurecer escolhas e alternativas e de assumir responsabilidades. A responsabilidade representa um ponto alto da tarefa educativa, pois ela envolve o outro, ela envolve toda a comunidade. O reconhecimento do outro é indispensável ao futuro das sociedades. Toda escolha deve ter um sentido ético, pois ela se relaciona com o mundo. Uma escola ideal como quer o Ministro Cristovam Buarque, será antes de tudo, uma escola que eduque pelo exemplo, que fundamente todas as suas ações em valores que apontem em direção a uma nova ética da existência e do desenvolvimento. O valor econômico da educação que importa ressaltar deve estar vinculado à dimensão moral, sem o que, desfaz-se a esperança e naturaliza-se o imediatismo.

Outro ponto alto desse projeto de cooperação é a participação das universidades e de organizações não-governamentais, que possuem uma enorme potencialidade, nem de longe aproveitada pelas escolas de educação básica que, via de regra, se isolam da comunidade. O processo de formação integral da juventude poderá ser consideravelmente enriquecido na medida em que a escola abre espaços para a contribuição de pessoas e instituições como escritores, artistas, universidades, entre outros. Essa cooperação poderá ocorrer inclusive sob a forma de enriquecimento cultural de uma determinada área de estudo. Numa sociedade do conhecimento, a escola perdeu a exclusividade. O conhecimento está em toda parte. Cria-se e se recria em ritmo sem precedentes. Ademais, a conexão com a comunidade permite uma formação mais próxima da realidade social, contribuindo desta forma para as escolhas futuras.

Por último, quero dizer que estou certo de que, ao final dessa cooperação, a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, em cooperação com a UNESCO terão desenvolvido uma experiência inovadora capaz de servir de referência no processo de construção de uma pedagogia para a juventude em tempos de incertezas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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