Você está aqui: Página Inicial Mídia Opinião Discursos e Palestras do Representante da UNESCO no Brasil Ano de 2003 Pronunciamento: "Encerramento do Curso Juventude e Direitos Humanos " - Brasilia - DF, 06 de novembro de 2003

Pronunciamento: "Encerramento do Curso Juventude e Direitos Humanos " - Brasilia - DF, 06 de novembro de 2003

Brasília - DF, 06 de novembro de 2003

 

Juventude, violência e cidadania são temas caros à Unesco. Desde 1997, a Organização tem realizado no Brasil uma série de pesquisas para mapear, analisar e compreender quem são os jovens, seu relacionamento com a escola, com a família e com seus próprios grupos. As pesquisas da Unesco, fundamentalmente, vem contribuindo com suas recomendações para a formulação de políticas públicas.

Esses estudos delineiam um quadro que pode ser classificado, no mínimo, como preocupante, pois revelam a situação de exclusão e violência a que está submetida uma parcela significativa da juventude brasileira. Como sabemos, hoje, temos 34 milhões de jovens no Brasil, que são os que mais matam e mais morrem na nossa sociedade. Temos 12% de jovens que não trabalham e não estudam. E ainda, 40% desses jovens vivem em situação de pobreza extrema. A ampliação das desigualdades e da exclusão social gera o agravamento dos sentimentos de insegurança, medo e vulnerabilidade que interferem e potencializam situações de violências nas escolas.

Nessa linha, entre os temas abordados nas pesquisas, a questão das violências nas escolas ganhou destaque. A ocorrência de brigas, agressões, entrada de armas e mesmo mortes, nos estabelecimentos de ensino, é um indicador da deterioração das relações humanas e sociais. Isso tudo, no âmbito de uma instituição que é, por excelência, o espaço de formação das futuras gerações.

Nessa trajetória, a Universidade Católica de Brasília se tornou um parceiro inestimável da Unesco, na medida que demonstrou sensibilidade e determinação para desenvolver iniciativas que possam colaborar para mudar este estado de coisas. Esta parceria se deu através do Observatório de Violências nas Escolas do Brasil, na medida que se tornou um núcleo de desenvolvimento de pesquisas, avaliações, cursos, trabalhos comunitários e de fomento do debate - como ocorrerá no próximo ano, por ocasião do Congresso Ibero-Americano sobre Violências nas Escolas. Esse será um evento preparatório do Congresso Internacional sobre o tema, que será realizado no Brasil em 2005. Este Congresso será organizado pelo Observatório Brasileiro, o qual atua em parceria com o Observatório Europeu da Violência Escolar e com o Observatório Internacional da Violência na Escola.

É dentro dessa linha de atuação, de estímulo ao debate e ao intercâmbio, que se insere o curso Juventude e Direitos Humanos, um projeto conjunto da Unesco e da Católica, atendendo uma solicitação do Batalhão Escolar da Polícia Militar do Distrito Federal. Trata-se de uma experiência extremamente rica, que possibilitou a interação de policiais e pesquisadores, atores que lidam com o problema da violência escolar a partir de perspectivas diferentes.

O intercâmbio já está produzindo outros desdobramentos. Um deles é a realização de um segundo curso, em 2004, para um número significativamente maior de policiais, consolidando o relacionamento entre a Polícia Militar do Distrito Federal, a Unesco e a Universidade Católica de Brasília.

Outro desdobramento é o surgimento de um novo olhar sobre as questões envolvendo a juventude, decorrente das reflexões e discussões realizadas durante o curso. Esse novo olhar certamente será revertido em novos padrões de relacionamento, superando a visão negativa sobre a juventude, que costuma predominar em nossa sociedade. Pois na medida em que se ultrapassa os estereótipos e as visões cristalizadas, reconhecendo as diferenças e especificidades dos atores sociais, abre-se a via para a criação de uma cultura de paz, em que a tolerância e o diálogo dão o tom. É assim que se abre a via para que os diferentes aprendam a viver juntos, inviabilizando a cultura de violência.

O querer e saber viver juntos exigem algumas mudanças de paradigmas e padrões. Para a Unesco, o viver juntos exige conhecimento, já que a intolerância e a rejeição do outro provêm, quase sempre, do medo que alimenta a ignorância, do desrespeito aos direitos humanos e da falta de acesso ao desenvolvimento humano.

Mas não basta conhecer, saber. É preciso mudar atitudes e comportamentos, pois há um certo número de códigos elementares que servem de fundamento à vida em sociedade. Entre eles estão o auto-respeito, o respeito pelo outro, pelo bem comum, pela qualidade de vida e pelas regras da vida comunitária. Portanto, em primeiro lugar, deve ser desenvolvida uma "educação civil", o fundamento da cultura de paz.

O dia de hoje é uma oportunidade para que todos se congratularem em virtude desses passos dados rumo à construção de uma cultura de paz. Desse modo, desejamos que os profissionais da segurança pública se sintam cada vez mais encorajados a refletir sobre o seu papel na construção da cidadania e na prevenção da violência na sociedade.

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