Você está aqui: Página Inicial Mídia Opinião Discursos e Palestras do Representante da UNESCO no Brasil Ano de 2003 Pronunciamento: "Lançamento da Década das Nações Unidas para a Alfabetização" - Alfabetização, desenvolvimento e cidadania - 20 de maio de 2003.

Pronunciamento: "Lançamento da Década das Nações Unidas para a Alfabetização" - Alfabetização, desenvolvimento e cidadania - 20 de maio de 2003.

Rio de Janeiro - RJ , 19 de maio de 2003


Há dois anos, quando solicitei a Violeta Weinschelbaum para pensar um livro que reunisse contos e ficções breves de escritores brasileiros e argentinos, passava em minha mente a idéia de que a UNESCO poderia dar uma contribuição significativa ao diálogo cultural no âmbito do Mercosul.

O Mercosul surgiu sob a égide das necessidades de integração econômica e, por isso mesmo, sua evolução tem sofrido as oscilações próprias do quadro de instabilidades e incertezas que dominam o cenário da economia globalizada. Todavia, entre as nações latino-americanas, independentemente das demandas de ordem econômica que devem aproximá-las e integrá-las, existem laços mais fundos de natureza civilizatória que devem ser pesquisados e postos em debate com o objetivo de aprofundar o entendimento dos pontos em comum, como também das diferenças e da diversidade cultural que as caracterizam.

Como diz o Relatório sobre Cultura e Desenvolvimento da UNESCO, nenhuma cultura constitui uma entidade hermeticamente fechada. Todas as culturas influenciam outras e são por elas influenciadas. Criar condições para o diálogo entre as culturas representa nos tempos atuais uma condição indispensável para a conquista da paz e para o fortalecimento da dimensão planetária da existência.

Violeta Weinschelbaum foi muito feliz na escolha dos autores e das ficções que compõem o livro. A antologia de contos organizada por ela, tendo por eixos orientadores os direitos humanos e o combate às violências e discriminações que lamentavelmente continuam a vitimar pessoas inocentes, mostra como a literatura participa do debate contemporâneo e pode ajudar a encontrar novas alternativas para o futuro das sociedades. A literatura de ficção tem o mérito de mostrar realidades que escapam até mesmo às análises econômicas e sociológicas mais sofisticadas.

Certamente no dia em que as políticas de planejamento de um país ou de uma região levarem em conta as contribuições da literatura, seguramente teremos uma visão mais humana da economia e muitos equívocos poderão ser evitados.
Assim sendo, o diálogo entre escritores brasileiros e argentinos, cuja relevância cultural torna-se desnecessário sublinhar e enfatizar, insere-se no marco das ações da UNESCO na região, com o objetivo de fazer avançar a integração no âmbito do Mercosul por intermédio de fatores não-econômicos, como a literatura. Estou seguro de que esta linha de pensamento poderá ampliar e dar mais sentido ao Mercosul. Ademais, nunca se pode perder de vista que o estudo da literatura e das línguas do Mercosul poderá também contribuir e facilitar a integração econômica.

Se a lógica dos mercados deve ser ampliada, deve ser também a lógica da cultura. É preciso como diz Morosini, desenvolver uma cultura da integração, com a lucidez de que integração não é pasteurização e não implica nenhum tipo de colonialismo interpaíses. Implica, sobretudo, respeito às características das nações partes e rearticulação das relações existentes. Começa-se a se formar uma nova consciência Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Esta cultura da integração é primordial para o sucesso do Mercosul .

E quando se fala em integração, não posso deixar de ressaltar também a integração educacional. Aliás, numa visão mais ampla, a educação faz parte do projeto cultural. Numa perspectiva de tempo, o processo educativo é essencial para a construção de uma cultura da integração. As crianças e os jovens precisam participar cada vez mais do processo de integração. Sob esse aspecto, a literatura pode representar um início marcante na medida em que escritores, como os que foram incluídos na Antologia das Vinte Ficções Breves, sejam aproveitados, por exemplo, nos livros didáticos da educação básica, proporcionando aos alunos a oportunidade de penetrar no imaginário das culturas que estão tão próximas e que são tão importantes para a formação de uma visão continental do mundo que estamos vivendo.

Para encerrar, quero ressaltar ainda que o diálogo que a UNESCO inicia hoje entre escritores argentinos e brasileiros, deverá ter continuidade e desdobramentos. A UNESCO vem mantendo sucessivos entendimentos com os Ministros da Educação e da Cultura do Brasil e com diversas outras autoridades dos países do Mercosul com o objetivo de ampliar esse diálogo e criar mecanismos que possam induzir e suscitar diferentes formas de cooperação entre as diversas instituições e atores que compõem o mosaico criador do Mercosul.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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