Você está aqui: Página Inicial Mídia Opinião Discursos e Palestras do Representante da UNESCO no Brasil Ano de 2002 Pronunciamento: " A Dimensão Cultural da Política de Educação" - São Paulo - SP, 20 de Agosto de 2001

Pronunciamento: " A Dimensão Cultural da Política de Educação" - São Paulo - SP, 20 de Agosto de 2001

São Paulo - SP, 20 de agosto de 2001


Mais uma vez a UNESCO sente-se gratificada em ser parceira do SESC na realização de um evento internacional de grande alcance para as políticas de educação e cultura no Brasil. O núcleo temático deste Encontro - Educação e Cultura - há muito vem sendo objeto das melhores atenções da UNESCO. O Relatório Nossa Diversidade Criadora produzido pela Comissão Mundial de Cultura e Desenvolvimento, já editado em língua portuguesa, pode mesmo ser considerado um dos pontos mais altos do pensamento da UNESCO no que diz respeito à importância dos fatores culturais nas políticas de desenvolvimento e na construção coletiva de uma nova ética para presidir e regular a convivência e o diálogo entre as diversas culturas.

O Relatório Nossa Diversidade Criadora lançou as bases e mostrou a indissociabilidade entre cultura e desenvolvimento. "Quando a cultura é entendida como base do desenvolvimento, diz o relatório, a própria noção de política cultural deve ser consideravelmente ampliada. Toda política de desenvolvimento deve ser profundamente sensível à cultura, e inspirada por ela".

E entre as políticas de desenvolvimento, a que mais estreitamente se vincula à cultura é a política de educação porque a própria educação configura-se como um processo de transmissão e construção da cultura. Por isso que uma política de cultura é indissociável de uma política de educação.

É importante sublinhar que não se trata somente de chamar a atenção para a importância econômica do setor cultural em termos de Produto Nacional Bruto(PNB). Se insistirmos exageradamente nessa linha de argumentação, os objetivos culturais correm o risco de serem suplantados por objetivos puramente mercantis. As práticas culturais possuem um significado mais profundo e se vinculam à identidade de uma comunidade ou de um povo.

Quando se afirma que as práticas culturais são importantes para a educação, por exemplo, isso deve ser entendido que um processo educativo só tem legitimidade e alcance quando respeita e considera a dimensão cultural. Só a partir da compreensão das raízes, pode-se propor a vôos mais altos. As diferenças precisam ser consideradas. Como diz Madan Sarup, da Universidade de Londres, a existência de outras lógicas e racionalidades, desafia o absolutismo de nossas próprias categorias .

O fracasso escolar de que tanto se fala na atualidade pode em parte ser explicado por matrizes culturais que naturalizam a repetência. Algumas chegam mesmo a desqualificar conceitualmente crianças pobres e negras. Ocorre que a cognição não pode ser separada do contexto cultural. A pedagogia precisa ser contextualizada. Não se pode em educação permanecer fora do universo cultural das crianças e jovens. A separação entre sujeito e objeto não faz mais sentido numa concepção moderna de educação e de desenvolvimento.

Daí a importância de um Encontro para discutir Educação e Cultura. Mais do que isso. De um Encontro que tem a marca e a presença de Edgar Morin, indiscutivelmente uma das mentes mais férteis da atualidade. Morin tem razão ao dizer que não podemos compreender alguma coisa de autônomo, senão compreendendo aquilo de que ele é dependente. Esta nova maneira de ver a ciência implica em uma revolução no pensamento, pois, o conhecimento ideal implicava fechar inteiramente um objeto e pesquisá-lo exaustivamente. Isso ainda é o ideal das teses de doutorado que, em geral, são tão estéreis por essa razão .

Assim sendo, o pensamento complexo de Morin possui implicações radicais na área da educação. Como ele mesmo diz, o pensamento complexo é o pensamento que se esforça para unir, não na confusão, mas operando diferenciações. Isto me parece vital na vida cotidiana. A necessidade vital da era planetária, diz Morin, é um pensamento capaz de unir e diferenciar. É uma aventura muito difícil. Mas se não o fizermos, teremos a inteligência cega, a inteligência incapaz de contextualizar .

Na área da educação e de suas relações com o mundo da cultura, o pensamento de Morin tem força para instaurar um novo paradigma para presidir e nortear o surgimento de uma pedagogia capaz de perceber diferenças e conexões e de tratá-las na perspectiva de construção de um novo entendimento do fenômeno educativo.

Um novo entendimento do fenômeno educativo poderá ampliar as chances para o advento de uma nova mentalidade capaz de operar discernimentos importantes no contexto da complexidade que estamos vivendo.

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