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Pronunciamento: "Seminário: Passos Práticos para a Construção da Paz" - Brasília 13 de Novembro de 2001

Brasília-DF, 13 de novembro de 2001

Entre os grandes compromissos mundiais da UNESCO, encontra-se a missão de promover e manter a paz. Cinqüenta anos depois da fundação das Nações Unidas e da UNESCO, o mundo se encontra novamente em posição de transformar a cultura predominante de violência em uma cultura de paz.

Hoje, o desafio não consiste mais em frear apenas as guerras e seus horrores, mas a violência, em todas suas formas. A violência que foi uma das características mais marcantes do século XX. E essa violência - em casa, no trabalho, na comunidade, entre os indivíduos e entre os países - mina as bases do desenvolvimento humano.
Há um consenso generalizado de que é preciso mudar. Mesmo os setores tradicionalmente mais conservadores concordam com o estabelecimento de novos pilares para orientar as políticas de desenvolvimento no século XXI.

Nesse movimento de reflexões e de análise prospectiva, a UNESCO se fez presente em diversos momentos, merecendo destaque, entre outros, os relatórios mundiais sobre cultura e desenvolvimento e sobre a educação para o século XXI, coordenados respectivamente por Javier Pérez de Cuéllar e Jacques Delors, a Ciência para o Século XXI, resultado da Conferência de Budapeste, a Declaração Universal sobre o Genoma Humano e os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, elaborado por Edgar Morin.

Todos esses documentos se tornaram referências universais e são hoje debatidos em todo o mundo. Eles advogam a necessidade de uma nova ética para presidir o desenvolvimento e estabelecem princípios e diretrizes para enfrentar os desafios do tempo presente e, tendo em vista, como diz o Relatório Mundial sobre Cultura e Desenvolvimento, a adoção de novas formas de pensamento, novos modos de ação, novas modalidades de organização social, em suma, novos estilos de vida. Em outras palavras, advogam um novo paradigma que considere a totalidade da vida humana.

Por esse motivo, a Assembléia Geral das Nações Unidas decidiu incumbir a UNESCO de levar à frente um movimento mundial de transição de uma cultura de guerra, de violência, de imposição e discriminação para uma cultura de não-violência, de diálogo, de tolerância e de solidariedade. Ou seja, à construção de uma Cultura de Paz. Durante o ano 2000, a UNESCO foi responsável por coordenar a comemoração do Ano Internacional da Cultura de Paz. E entre os muitos resultados alcançados, está o Manifesto 2000, onde o Brasil foi o pais do ocidente que recolheu o maior número de assinaturas.

Agora, estamos incumbidos, também pela Assembléia Geral da ONU, de levar adiante as atividades de divulgação da Década Internacional por uma cultura de paz e não violência para as crianças do mundo.
Nessa mesma linha merece destaque, também, os esforços desenvolvidos pela UNESCO Brasil, tanto no debate e confronto de idéias quanto por intermédio de pesquisas sobre juventude, violência e cidadania. São exemplos desse esforço os eventos promovidos pela UNESCO e outras entidades sobre os impasses da globalização(governar a globalização) e sobre os caminhos do desenvolvimento(terceira via), como também várias pesquisas sobre violência, juventude e cidadania, gerando conhecimento importante para as políticas públicas de desenvolvimento social. Além disso, a UNESCO no Brasil tem tido uma preocupação permanente no sentido de transformar idéias em ações. O projeto de abertura de escolas nos fins de semana, visando a superação da violência e a construção de uma nova ética social, que está em curso em alguns Estados e Municípios, insere-se nessa preocupação. Ele visa essencialmente desenvolver nas escolas os valores que a UNESCO defende. Uma escola de qualidade que cultive valores universais e valorize a diversidade criadora representa um dos caminhos mais seguros para o futuro da sociedade.

O Programa escolas de Paz começou a ser desenvolvido no Estado do Rio de Janeiro numa parceria entre a UNESCO e o Governo Estadual. Esse Programa teve origem numa pesquisa feita pela UNESCO que constatou o aumento da incidência de crimes por homicídios e de diversos tipos de violências entre os jovens nos finais de semana. A partir deste dado foi pensado o projeto de abertura das escolas nos finais de semana visando a criação de espaços alternativos com vistas a dinamização do protagonismo juvenil.

A experiência de abertura das escolas no final de semana foi recentemente avaliada e os seus resultados considerados bastante animadores. Este projeto está sendo também implementado em outros estados e municípios, entre os quais Pernambuco, Bahia, Mato Grosso, Palmas, Maceió. Para dar apoio a esse projeto a UNESCO tem realizado e publicado inúmeros estudos e pesquisas entre os quais se destacam Escolas de Paz e Valores Proclamados e Valores Vividos. Essas publicações visam essencialmente colocar à disposição dos professores e das escolas que integram o programa das Escolas de Paz, orientações atuais para o desenvolvimento de uma pedagogia de valorização do ser humano. De forma a substituir a cultura autoritária, por uma cultura do aprender a viver juntos e de respeitar o seu universo cultural.

Precisamos hoje ter a coragem de levar para a prática algumas idéias que sempre foram vistas como inviáveis e até mesmo utópicas. Inúmeras experiências que a UNESCO tem apoiado indicam que é possível mudar. Ainda recentemente a UNESCO publicou um livro - Cultivando Vidas, Desarmando Violências - que relata e analisa os resultados de ampla pesquisa nacional sobre experiências inovadoras com jovens em situação de risco. Esse livro mostra que com poucos recursos e uma política compartilhada, é possível trilhar novos caminhos para a juventude, evitando descaminhos e ajudando o jovem a reconstruir o seu projeto de vida.

Sabemos que o basta à violência não será imediato nem automático. É necessário buscar respostas viáveis para que, juntos, possamos dar início à construção da Paz. Sabemos que os dados da violência no Brasil são assustadores. De que forma se faz oposição a isso? Como é que a sociedade brasileira pode responder à demanda da população por paz? Acreditamos que a possível resposta se encontre no marco da Cultura de Paz.

Para subsidiar a construção de uma resposta adequada ao Brasil, como foi dito antes, a UNESCO teve que mapear as causas, as fontes e as raízes da violência. Para isso, desenvolvemos estudos que ajudam jovens, pais, alunos, representantes políticos, forças policiais e governantes a identificar possíveis caminhos para a construção da paz no país. Esses estudos já cobriram as cidades de Curitiba, Distrito Federal, Rio de Janeiro, Fortaleza e São Paulo, além de duas pesquisas de corte nacional.

Em todo o Brasil, indivíduos, instituições e estados já estão tomando parte na Campanha Mundial da Cultura de Paz. Contamos com o apoio de grande número de parceiros, dentre eles grupos de jovens, professores, prefeitos, membros do Congresso Nacional, das forças armadas e da mídia, representantes religiosos, dos povos indígenas, artistas e a iniciativa privada.

Mas também sabemos que a construção da paz demanda um longo caminho. a pobreza, a exclusão, a ignorância, a discriminação racial e a exploração do trabalho humano são poderosas afrontas aos valores que a Cultura de Paz sustenta e defende.

A banalização da miséria é uma das formas de violência e degradação humana mais violentas. A atitude impassível das pessoas face às crianças que pedem esmolas nos cruzamentos de todas as metrópoles brasileiras é um exemplo disso. É essa a violência que devemos combater, porque é essa a violência que compromete o futuro do país e a cidadania.

A Cultura de Paz, por outro lado, pode contribuir de forma significativa, ao incentivar a reflexão e evidenciar que a construção da Paz é responsabilidade de todos. E isso é fundamenta: cada um dos componentes da sociedade tem uma parcela importante de responsabilidade, da qual não pode abrir mão.
A Campanha Mundial da Cultura de Paz, por outro lado, deve respeitar cada país, suas tradições, peculiaridades e diversidade, incorporando uma dimensão social e de participação.

O pluralismo cultural é outra força diretriz para a paz e a solidariedade internacionais. A paz não pressupõe de forma alguma homogeneidade. E o Brasil é um claro exemplo de que é possível a convivência harmônica em uma sociedade culturalmente diversa.

O Movimento Mundial pela Cultura de paz é "uma grande aliança de movimentos existentes", um processo que unifica todos aqueles que já trabalharam e que estão trabalhando a favor desta transformação fundamental de nossas sociedades. O objetivo é permitir que toda pessoa ou organização contribua para esse processo de transformação de uma cultura de violência para uma cultura de paz, em termos de valores, atitudes e comportamento individual, bem como em termos de estruturas institucionais.

É esse o desafio que a UNESCO tem para os próximos anos: construir uma cultura de paz que previna e combata todo tipo de violência, exploração, crueldade, desigualdade e opressão. Incluir os excluídos, diminuir desigualdades e revisar padrões de humanidade com os quais convivemos. Não fica impassível diante da miséria, nem a degradação humana gerada por modelos econômicos que priorizam mercados e não pessoas. Fortalecer valores essenciais à vida democrática: igualdade, respeito aos direitos humanos, tolerância, diálogo, reconciliação, solidariedade, desenvolvimento e justiça social, são passos práticos para a construção da paz.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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