Pronunciamento: "Lançamento do Selo da Década Internacional da Cultura de Paz e Não Violência para as Crianças do Mundo" - Brasília, DF - 3 de Maio de 2001
A violência, em todas suas formas, foi uma das características mais marcantes do século XX. E essa violência - em casa, no trabalho, na comunidade, entre os indivíduos e entre os países - mina as bases do desenvolvimento humano.
Por esse motivo, a Assembléia Geral das Nações Unidas decidiu incumbir a UNESCO de levar à frente um movimento mundial de transição de uma cultura de guerra, de violência, de imposição e discriminação para uma cultura de não-violência, de diálogo, de tolerância e de solidariedade. Ou seja, à construção de uma Cultura de Paz. Durante o ano 2000, a UNESCO foi responsável por coordenar a comemoração do Ano Internacional da Cultura de Paz.
Agora, estamos incumbidos, também pela Assembléia Geral da ONU, de levar adiante as atividades de divulgação da Década Internacional por uma cultura de paz e não violência para as crianças do mundo.
Sabemos que o basta à violência não será imediato nem automático. É necessário buscar respostas viáveis para que, juntos, possamos dar início à construção da Paz. Sabemos que os dados da violência no Brasil são assustadores. De que forma se faz oposição a isso? Como é que a sociedade brasileira pode responder à demanda da população por paz? Acreditamos que a possível resposta se encontre no marco da Cultura de Paz.
Para subsidiar a construção de uma resposta adequada ao Brasil, a UNESCO teve que mapear as causas, as fontes e as raízes da violência. Para isso, desenvolvemos estudos que ajudam jovens, pais, alunos, representantes políticos, forças policiais e governantes a identificar possíveis caminhos para a construção da paz no país. Esses estudos já cobriram as cidades de Curitiba, Distrito Federal, Rio de Janeiro, Fortaleza e São Paulo, além de duas pesquisas de corte nacional.
Em todo o Brasil, indivíduos, instituições e estados já estão tomando parte na Campanha Mundial da Cultura de Paz. Contamos com o apoio de grande número de parceiros, dentre eles grupos de jovens, professores, prefeitos, membros do Congresso Nacional, das forças armadas e da mídia, representantes religiosos, dos povos indígenas, artistas e a iniciativa privada.
Mas também sabemos que a construção da paz demanda um longo caminho. a pobreza, a exclusão, a ignorância, a discriminação racial e a exploração do trabalho humano são poderosas afrontas aos valores que a Cultura de Paz sustenta e defende.
A banalização da miséria é uma das formas de violência e degradação humana mais violentas. A atitude impassível das pessoas face às crianças que pedem esmolas nos cruzamentos de todas as metrópoles brasileiras é um exemplo disso. É essa a violência que devemos combater, porque é essa a violência que compromete o futuro do país.
A Cultura de Paz, por outro lado, pode contribuir de forma significativa, ao incentivar a reflexão e evidenciar que a construção da Paz é responsabilidade de todos. E isso é fundamenta: cada um dos componentes da sociedade tem uma parcela importante de responsabilidade, da qual não pode abrir mão.
A Campanha Mundial da Cultura de Paz, por outro lado, deve respeitar cada país, suas tradições, peculiaridades e diversidade, incorporando uma dimensão social e de participação.
O pluralismo cultural é outra força diretriz para a paz e a solidariedade internacionais. A paz não pressupõe de forma alguma homogeneidade. E o Brasil é um claro exemplo de que é possível a convivência harmônica em uma sociedade culturalmente diversa.
O Movimento Mundial pela Cultura de paz é "uma grande aliança de movimentos existentes", um processo que unifica todos aqueles que já trabalharam e que estão trabalhando a favor desta transformação fundamental de nossas sociedades. O objetivo é permitir que toda pessoa ou organização contribua para esse processo de transformação de uma cultura de violência para uma cultura de paz, em termos de valores, atitudes e comportamento individual, bem como em termos de estruturas institucionais. Nesse sentido, o lançamento do selo da Década da cultura de paz em parceria com os Correios permitirá divulgar ainda mais o tema e levá-lo não só aos quatro cantos do Braisl , mas também do mundo.
É esse o desafio que a UNESCO tem para os próximos anos: construir uma cultura de paz. Trabalhar em prol da educação para todos, na construção solidária de uma nova sociedade mais igual e justa, especialmente para nossas crianças, onde o respeito aos direitos humanos e à diversidade se traduzam concretamente na vida de cada cidadão, onde haja espaço para a pluralidade e a vida possa ser vivida sem violência.
A UNESCO acredita que é possível, e os convida a se engajarem - todos - conosco nesse desafio. Queremos que esse núcleo cresça e ganhe amplidão.
Muito obrigado

