Pronunciamento: "Encontro de Cidades" - Brasília 8 de Novembro de 2001
Brasília-DF, 08 de novembro de 2001.
Senhor Francisco Mesquita Neto
Senhor Paulo Teixeira
Senhor Francisco Ornellas
Senhores professores
Caras alunas e alunos
É com grande alegria que dou inicio aos trabalhos desse primeiro Encontro de Cidades Patrimônio Mundial no Brasil. Afinal, não é todo dia que podemos ter tanta gente importante conosco:
- De um lado, os prefeitos das cidades brasileiras mais representativas da formação cultural do país, juntamente com os secretários de cultura dos seus estados;
- De outro, os mais altos dirigentes do setor público nas áreas de cultura, meio ambiente, turismo e planejamento, além, é claro, de organismos vitais ao fomento da atividade econômica do país que são a Caixa e o SEBRAE.
À UNESCO e à sua equipe, com o apoio da nossa parceira, a Associação Brasileira de Municípios, cabe aquilo que a nossa história de organização voltada para a valorização do ser humano e para a construção da paz nos ensinou de melhor - a criar sinergias, buscar convergências e articular cooperações em torno de boas idéias e de bons propósitos.
No caso específico desse nosso Encontro, que propósitos seriam esses?
Para responder a essa pergunta, peço licença aos senhores para uma pequena retrospectiva da construção das idéias da UNESCO sobre a Cultura.
Nossa organização foi criada em 1945, em meio à perplexidade do pós-guerra, e elegeu a Educação, a Ciência e a Cultura como sua estratégia para atingir um novo ideal de progresso, baseado não apenas no desenvolvimento material, mas na construção da cidadania e do bem estar social.
O primeiro, foi de que Cultura é um fator indissociável do Desenvolvimento, sem o qual os países não são capazes de avançar, de incorporar criticamente novas tecnologias, de produzir conhecimento ou de criar estratégias para seu bem estar social;
O segundo é de que a Cultura é a expressão da Diversidade entre os povos - sejam nações, grupos étnicos ou mesmo classes sociais - e que o respeito à Diversidade e ao Pluralismo é a essência da construção da Paz mundial.
Isto significa - senhores Prefeitos, secretários, e dirigentes públicos - que cada uma dessas Cidades Patrimônio Mundial que estão confiadas à gestão dos senhores e à tutela da UNESCO, são um instrumento do Desenvolvimento e uma peça fundamental no mosaico da Diversidade Cultural.
Diante de compromisso tão sério, me cabe perguntar:
Seria o município o único responsável por esta tarefa?.
- A nossa opinião os senhores já conhecem, ou seja, é por acreditarmos que esta é uma responsabilidade a ser compartilhada é que organizamos essa agenda de hoje.
Mesmo assim, entendo que ainda nos faltam aqui nesta mesa muitos parceiros :- a sociedade civil, o setor empresarial, o terceiro setor, os meios de comunicação.
Uma das nossas intenções com esse Encontro é exatamente ajudar a construir as alternativas que nos levem a ampliar cada vez mais essa mesa de reuniões.
Acontece que, para isso, entendo que nos falta um elemento essencial:
Precisamos conhecer melhor os produtores, os destinatários, enfim, aqueles a quem pertence o Patrimônio que insistimos em preservar.
Será que cada um dos moradores dessas cidades tem a dimensão do significado - tanto simbólico quanto econômico - do lugar onde vive? Ele sabe que a sua cidade foi reconhecida como Patrimônio da Humanidade e tem idéia do que isso significa?
Lanço aos senhores, de imediato, um desafio:
Que nós nos organizemos - o conjunto das cidades brasileiras Patrimônio Mundial, a UNESCO, a ABM e os nossos parceiros dessa reunião de hoje - para fazer uma pesquisa amostral em todas essas cidades, buscando ir ao fundo dessa questão. Devemos indagar quanto a população dessas cidades conhece e valoriza o Patrimônio, o quanto se dispõe a contribuir para preservá-lo, o quanto o reconhece como parte da sua existência enquanto indivíduo e enquanto cidadão.
Uma pesquisa tecnicamente bem formulada nos permitirá saber tudo isso. Mostrará de forma diferenciada o pensamento e o comportamento dos vários extratos sociais e nos ajudará a aferir se estamos focando as nossas ações na direção correta
Será que estamos otimizando os meios que já possuímos para inserir o tema do Patrimônio no cotidiano das comunidades? As nossas crianças e jovens estariam tendo acesso, através dos currículos escolares, ao conhecimento que os permita compreender e valorizar este patrimônio?
E as tradições, o saber-fazer tradicional estariam sendo estimulados ou adequadamente articulados com a preservação do patrimônio material?
Por outro lado, caberia também indagar se os gestores locais - seja da Prefeitura ou dos outros níveis de governo - têm considerado a valorização do patrimônio no planejamento de suas ações. Da mesma forma, se o empresariado estaria capacitado para explorar ou estaria explorando adequadamente a riqueza que a cidade possui.
Tampouco sabemos ao certo, porque também nos faltam pesquisas e políticas mais agressivas nesse campo, se toda essa riqueza tem contribuído para minimizar os problemas sociais, criar empregos e facilitar ações de inclusão social.
Sabemos do esforço do orçamento público para responder às demandas da área social. Será, no entanto, que estamos conseguindo canalizar adequadamente nossos esforços ou otimizar cada ação, de forma que essa se multiplique e seja reaplicada outras vezes ou em outros locais?
Vistas por esse ângulo, acredito firmemente que as nossas cidades Patrimônio Mundial poderiam vir ser um riquíssimo cardápio de boas práticas, e que, a partir delas, poderíamos criar um modelo de gestão cultural direcionado para uma estratégia de desenvolvimento social.
Apesar de apenas um dia de trabalho, pretendemos que este Encontro provoque todas essas indagações e esboçe as suas primeiras respostas.
Iremos, a partir daí, construindo uma cooperação que pretendemos que seja cada vez mais articulada e mais sólida, agregando cada vez mais parceiros e novos temas.
Apesar da representação do Brasil ainda ser pequena na grande Lista do Patrimônio Mundial, temos aqui representados os mais fortes símbolos que o pais produziu nos seus quinhentos anos de história:
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da mais antiga à mais jovem capital do pais;
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dos ciclos do cana de açúcar e do ouro à industrialização;
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do esplendor do Barroco e da simplicidade da arquitetura de tradição popular à sofisticação do Modernismo;
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da seresta e do maracatu ao afoxé.
Nosso desafio é fazer com que esses símbolos ultrapassem gerações e gerações e se tornem cada vez mais um fator de bem-estar social, indissociáveis e harmonizados com o cotidiano das comunidades onde se inserem.
Contem com o apoio da UNESCO em todas as suas áreas!
Um bom trabalho para todos!

