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Pronunciamento: Cerimônia de Entrega do Prêmio Roberto Marinho Cultura de Paz

Rio de Janeiro, 30 de junho de 2005

O Legado de Roberto Marinho

 

Antes de darmos início à programação desta noite, considero importante entendermos o que esta ocasião representa. Qual o significado de criar um Prêmio chamado Roberto Marinho Cultura de Paz? Que critérios e fatos precedem à criação de um prêmio pela UNESCO? Em outras palavras, por que um prêmio é criado?

Um prêmio surge da necessidade de ressaltar um determinado valor, um princípio, por meio da exemplificação, buscando conferir reconhecimento público a uma obra, uma instituição ou uma personalidade, cujas contribuições tenham sido relevantes e se situem no marco do mandato da organização. No caso do Brasil, inúmeros dados e pesquisas da UNESCO sobre a violência no país levaram-nos a pensar na criação de um Prêmio de Cultura de Paz.

Era fundamental que este Prêmio estivesse atrelado a uma figura forte, que representasse um ponto de referência para a promoção de uma cultura de paz no Brasil. Ao movimentar o raciocínio nesta direção, surgiu o nome de Roberto Marinho.

Por que isso? A resposta se encontra em sua trajetória pública de reconhecidas realizações relevantes, vinculadas aos pressupostos fundantes da UNESCO, quais sejam, a educação, a ciência, a cultura e a comunicação, todos eles, em um embricamento lógico, conduzindo a uma cultura de paz. Roberto Marinho compartilhava a convicção da UNESCO de que só a lucidez e o conhecimento podem conduzir à formação de mentalidades impregnadas dos valores de liberdade, tolerância e justiça social. Esta certeza sempre presidiu as ações do homem público Roberto Marinho.

Para a UNESCO, as bases da paz encontram-se no conhecimento e no diálogo. Roberto Marinho acreditava nisto e, portanto, interligou regiões remotas por meio de uma densa rede de telecomunicação, que mostrava ao brasileiro sua diversidade, sua riqueza, sua natureza plural. Mostrou o Brasil a si mesmo, da mesma maneira como apresentou-lhe o mundo, por intermédio de um jornalismo profissional e de qualidade.

De maneira similar, Roberto Marinhou atuou como verdadeiro Embaixador da Cultura Brasileira, levando aos cinco continentes informações objetivas sobre este país e outros tantos elementos da nossa cultura, como nossa música, nossa literatura, nossas telenovelas. Promoveu, assim, o diálogo intercultural - eixo sobre o qual a UNESCO busca guiar sua atuação.

Ademais de Embaixador, Roberto Marinho foi um grande Guardião da Memória do Brasil. Empenhou-se em favor da preservação do patrimônio histórico material e imaterial. Valorizou a cultura popular, sem deixar de homenagear os clássicos. Investigou em profundidade a História Brasileira, resgatando fatos e documentos e disseminando-os em horário nobre, em cadeia nacional. Deixou, assim, um dos mais valiosos acervos sobre a História deste país, patrimônio este que é preservado e aprimorado pelo primoroso trabalho de seus sucessores.
Roberto Marinho soube ainda reconhecer o potencial dos meios de comunicação para o avanço da educação em um país no qual o analfabetismo ainda consiste em significativa barreira à disseminação da informação. Buscando realizar o objetivo da UNESCO de prover a todos com uma educação de qualidade, ele criou, em sucessivas iniciativas, sempre vanguardistas, diversos programas voltados à educação da população, tais como o Telecurso 2000 e o Canal Futura. Tais ações apresentaram sempre elevada qualidade pedagógica e eram cuidadosamente adequados à realidade da educação brasileira. Devido a esta postura responsável, que refletia sua visão da educação como componente prioritário do desenvolvimento nacional, tais meios foram, e continuam sendo, instrumentos privilegiados para ajudar o país a inserir-se em uma sociedade do conhecimento.

Mas suas ações atingem um espectro muito maior. Roberto Marinho foi pioneiro em chamar a atenção da sociedade produtiva para sua responsabilidade para com o futuro do país. Por meio de projetos como Amigos da Escola e Ação Global, disseminou o princípio da responsabilidade social, estabelecendo diversas parcerias que favoreceram a introdução do mundo produtivo em diversos segmentos.

Nessa direção, destaca-se o Programa Criança Esperança, hoje desenvolvido em parceria com a UNESCO. Este Programa define-se como verdadeira estratégia de inclusão social, que mobiliza todo o país. Convoca a cada um e a todos para uma obra que se insere, de forma significativa, no processo de redução das desigualdades sociais. Em outras palavras, o Criança Esperança é um Programa de Educação para a Paz. É um programa que abre espaços para a criança e o adolescente crescerem como sujeitos de um processo coletivo de reconstrução do país.

Estes fatores, apenas, seriam suficientes para justificar porquê a UNESCO decidiu conferir ao seu Prêmio Cultura de Paz o nome Roberto Marinho. Contudo, esses são exemplos mínimos da magnífica obra deste grande homem, que, até seus últimos momentos, dedicou-se à construir de um país melhor, por meio da educação, da ciência, da cultura e da comunicação. Um homem cujos anos foram incapazes de roubar seu ímpeto inovador.

Aliás, este anseio pelo novo, pelo melhor, é uma das características que sempre me provocou admiração pela figura de Roberto Marinho. Ele possuía uma singular capacidade de antecipar-se aos tempos, de ousar, de correr riscos. Vivemos num tempo que ao homem público importa olhar para frente e, com destemor e ousadia, enfrentar obstáculos e adversidades. Pois, sem isso, não se consegue romper com as amarras que impedem enxergar além, de forma a ver e a buscar horizontes mais promissores. Sob esse aspecto, Roberto Marinho é um exemplo a ser seguido.

Precisamos todos, que desejamos fazer da paz uma realidade brasileira, agir com ousadia, questionar o atual estado das coisas, acreditar que é possível mudar o ambiente à nossa volta. Precisamos abrir-nos aos ataques que certamente virão e preparar-nos para ultrapassar as barreiras que se interpõem ao cumprimento de nossa missão. É preciso coragem, é preciso força, é preciso determinação.

E é preciso reconhecer os trabalhos daqueles que se empenharam em favor desta causa e que, a exemplo de Roberto Marinho, têm sido exitosos em suas iniciativas. Olhemos para estes casos, para estas histórias e aprendamos com elas as lições que nos têm a ensinar.

E para que essas lições possam ser aprendidas e disseminadas, a UNESCO tomou a decisão que, neste momento, tenho a satisfação de anunciar. Refiro-me à criação da cátedra UNESCO Roberto Marinho, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. A Unesco já fez os devidos entendimentos com esta conceituada universidade, que, de imediato, se ofereceu para sediar este importante projeto. Uma cátedra UNESCO configura-se como uma instância de ensino, pesquisa e extensão em áreas e temas de reconhecida relevância. Essa cátedra terá a missão de, a partir das experiências e das lições legadas por Roberto Marinho, fazer avançar o ensino e a pesquisa na área da comunicação, tendo como pressupostos fundantes o direito de todos a uma informação fidedigna e ética.

Desde já, gostaria de dizer que cada uma das instituições ou personalidades que foram indicadas para concorrer ao Prêmio Roberto Marinho Cultura de Paz hoje são dignas de nossa atenção. Cada um dos cinco finalistas aqui presentes tem algo a nos contar, uma história sobre como podemos contribuir, das mais diversas maneiras, para a construção de mentalidades e para a construção de um ambiente de paz. Gostaria de cumprimentar aos jurados pela árdua tarefa de escolher um ganhador, entre tão seleto grupo. Mas digo, a todos os senhores, que, ainda que saiam daqui sem levar este prêmio em mãos, certamente já contam com nosso reconhecimento - e seguirão contando com nosso apoio.

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