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Pronunciamento: Grande Encontro de Decisores do Instituto Ayrton Senna

São Paulo, 17 de junho de 2005

Por uma nova concepçãp pedagógica para a Juventude

 

A reunião de um grupo de decisores para afirmar sua co-responsabilidade pela causa da juventude, além de ser inédita, reveste-se de um significado especial. Os jovens começam a ser ouvidos. Mais do que isso. Projetos de grande alcance, como o Programa Escola Família e o Superação Jovem e tantos outros que começam a surgir em diversas partes do país, começam a inaugurar uma nova etapa de políticas públicas em prol da juventude.

Possui o Brasil hoje, na faixa etária de 15 a 24 anos de idade, aproximadamente 34 milhões de jovens. São jovens ansiosos por um projeto de vida que dê significado e relevância às suas existências. São jovens de uma sociedade cada vez mais globalizada, que se transforma em ritmo sem precedentes. E, por isso mesmo, são jovens que estão sofrendo os abalos das mudanças em curso e se encontram mergulhados em um mundo de perplexidades, de incertezas quanto ao futuro e de ausência de sínteses capazes de engendrar um novo sentido, não somente no plano individual, mas também no social, pois a palavra-condição-chave deste novo milênio, se define cada vez mais em torno da idéia de solidariedade.

Assim sendo, uma educação para a solidariedade está no epicentro de uma nova concepção pedagógica para a juventude. E isto só se tornará possível se tivermos a coragem de conceber uma educação que não desqualifique o potencial da juventude, de forma a não volatizar a sua subjetividade e, ao contrário, que seja capaz de criar ambientes de aprendizagem que favoreçam a relação dialógica e desafiem permanentemente a vontade de ser e de fazer dos jovens.

Quando a UNESCO iniciou, há oito anos, uma política de pesquisa sobre violência, juventude e cidadania, tínha clareza de que era necessário conhecer por dentro o mundo jovem para, a partir daí, pensar e conceber um projeto educacional inovador. A oportunidade surgiu diante da constatação de maior incidência da criminalidade jovem nos fins de semana. Por que, então, não abrir as escolas nos fins de semana, convertendo-as em agências de formação cultural e cidadã da juventude e, desta forma, impedir que milhares de jovens sejam atraídos facilmente por itinerários de vida voláteis e perversos? Essa pergunta converteu-se em projeto que deu origem a várias experiências, entre elas o Programa Escola Família do Estado de São Paulo, até ser finalmente assumido como política pública do Ministério da Educação.

Nessa direção, sobressai a parceria firmada entre o Programa Superação Jovem e Escola Família que pode ser qualificada como uma visão de futuro, pois está permitindo levar o Superação Jovem a mais de 8 mil educadores e centenas de milhares de jovens deste Estado bandeirante e pioneiro.

Os resultados dessa política de valorização da juventude já se mostram visíveis, como recentemente ficou demonstrado pela pesquisa feita pela Unesco sobre o mapa da violência de São Paulo, que mostrou um declínio de 12,1% nos índices de homicídios entre 1999 e 2003. Isso comprova no Brasil inúmeras evidências empíricas de nível internacional sobre a importância de ações preventivas, que tem ainda a seu favor o fato de possuírem um custo muito menor do que o custo de políticas meramente repressivas. Nesse sentido, aproveito a oportunidade para felicitar o Governador de São Paulo - Geraldo Alckmin - que não tem poupado esforços para imprimir às políticas públicas de seu governo, uma dimensão prospectiva e de estado.

Por isso, é importante ouvir e respeitar os jovens. Não se pode desenhar políticas para a juventude sem auscultá-los.  É ilusão pensar que eles são alienados.

Ainda esta semana, a UNESCO lançou mais um livro sobre a juventude - Estar no Papel: cartas dos jovens do Ensino Médio. Essa obra dá uma idéia mais precisa da nova mentalidade da nossa juventude. Escrevendo sobre os sentidos da escola, os jovens revelam uma impressionante lucidez. Dizem, por exemplo, que a escola é tudo para que se possa construir um Brasil melhor. Por isso, ela necessita de mais recursos. Afirmam que ela precisa ser mais prática e menos teórica, com mais aulas e professores disponíveis para as dúvidas em relação ao processo ensino-aprendizagem. Eles sentem a falta de professores mais qualificados e que invistam no potencial dos alunos. Em suma, esse livro da UNESCO encerra depoimentos valiosos para uma nova concepção pedagógica. Uma nova concepção que leve em conta um dado de grande alcance. Os jovens querem aprender e estão dispostos a ajudar a escola a desempenhar o seu verdadeiro papel: o de ser uma instância formadora para a cidadania e a vida.

Estou seguro de que experiências como as dos programas Superjovem e Escola Família apontam em direção ao futuro da Educação. São por essas evidências que não me canso de dizer e de reivindicar uma política de Estado para a educação brasileira, como uma condição imprescindível para dar estabilidade e evitar que experiências inovadoras possam, um dia, estar submetidas às oscilações da economia e da política partidária.

Por último, quero ressaltar o valor das parcerias público-privadas. Desde a Declaração Mundial de Educação para Todos aprovada pela Reunião de Jomtien, na Tailândia, no começo dos anos noventa que a Unesco tem procurado mostrar em escala internacional a importância estratégica de alianças e de parcerias na formulação e condução de políticas públicas.  A aliança de parceiros existente  em ambos os programas imprime uma nova dimensão às ações. Além disso, a magnitude dos desafios sociais do Brasil requer a união e sinergia de todas as vontades - do poder público e da sociedade civil.  Oxalá possa essa estratégia adquirir escala nacional, de forma a viabilizar um pacto pela educação. Nisso reside uma das maiores esperanças da crença e da Unesco no Brasil.

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