27/11/2006 - Especialista responsável pelo Estudo sobre Violência contra Crianças das Nações Unidas
Entrevista com Paulo Sérgio Pinheiro
Em entrevista ao Bureau of Public Information/ UNESCO, o brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, especialista independente responsável pelo Estudo sobre Violência contra Crianças, solicitado pela Secretaria Geral das Nações Unidas, falou sobre a situação do Brasil no contexto mundial. Pinheiro esteve na sede da UNESCO em Paris, no dia 23/11/2006, para participar da conferência "Schoole related gender-based violence in the context of Education for All: role and responbility of stakeholderes".
No contexto do estudo global e relatório sobre a violência contra crianças que o senhor acaba de realizar para a Secretaria Geral das Nações Unidas, como está a situação brasileira?
É preciso esclarecer que este não é um estudo específico sobre o Brasil ou a América Latina. No Brasil, a violência afeta a vida de crianças, adolescentes, mas também dos professores, em escolas que majoritariamente estão nas comunidades populares. O que caracteriza o nosso país é a sua ambigüidade, talvez seja esta uma de suas qualidades. Ao mesmo tempo em que, por um lado, nós temos graves problemas de violência na escola, por outro lado, a UNESCO está, há muito tempo, intensamente associada à melhoria da escola em geral. No Brasil, a UNESCO faz uma campanha muito dinâmica sobre a violência na escola, e têm se associado a redes de televisão e a campanhas públicas para aumentar a consciência da população sobre o tema. Esta prática de disseminar formas de lidar com a violência na escola, eu acho que é uma referência para o continente e uma referência internacional.
O senhor diria então que o Brasil se encontra em uma situação positiva ou em evolução com relação à questão da violência nas escolas?
No Brasil, o positivo é o processo. É um país que tem uma das piores distribuições de renda no mundo, que tem um racismo estrutural onde as crianças afro-descendentes são enormemente sancionadas no sistema, um país onde existem largas quotas de evasão escolar, afetando basicamente crianças afro-descendentes. O importante é o processo de melhoria. Também é fundamental que exista uma enorme consciência do problema. Muito progresso se fez em matéria de conscientização, e a UNESCO têm contribuído para isso. Eu lembro que quando fiz parte do governo no Brasil, participei de um seminário importante da UNESCO sobre a questão da discriminação racial e do racismo. A UNESCO está associada a muito do que se tem feito de bom sobre a questão da violência, a luta contra a discriminação e a promoção de uma boa escola. É evidente que a "boa governança" ou governabilidade também progrediu enormemente no Brasil. Podemos tomar como exemplo o que o estado do Ceará foi capaz de fazer nos dez últimos anos em termos de redução da mortalidade infantil, acesso e qualidade da escola. Desde 1983, em São Paulo, o governador André Franco Montoro implantou a merenda escolar. Tanto o governo Cardoso como o governo Lula aprofundaram a 'bolsa-escola'. Esta é uma grande invenção do governador do Distrito Federal, Cristovam Buarque, que, aliás, trabalhou junto à UNESCO neste projeto em Brasília. A bolsa escola é um achado formidável, principalmente pela condição de as famílias terem que enviar as crianças à escola para receberem um aumento de suas rendas.
Para mais informações (em inglês):
Relatório Mundial sobre violência contra crianças
http://www.violencestudy.org/r229
Sobre Paulo Sérgio Pinheiro
http://www.violencestudy.org/a30
Publicação UNESCO: Estudo de conhecimento sobre o "Avanço construtivo em disciplinar crianças"; Prefácio de Paulo Sérgio Pinheiro
Eliminating Corporal Punishment
Ricardo de Guimarães Pinto
UNESCO / Bureau of Public Information


