20/03/2007 - Representante interino da UNESCO no Brasil
Entrevista com o Representante interino da UNESCO no Brasil, Vincent Defourny
1. Por que fazer uma convenção sobre a diversidade das expressões culturais?
A Convenção para a Proteção e a Promoção da Diversidade das Expressões Culturais é uma dentro de um conjunto de várias convenções e instrumentos que tratam da diversidade cultural e dos meios usados para o desenvolvimento, principalmente, das indústrias culturais, o cinema, a televisão, a música, artes em geral. Por que a UNESCO fez uma convenção sobre esse assunto? Existe um risco de uniformização das expressões culturais e frente a este risco é importante desenvolver e destacar o papel dos Estados-membros da UNESCO no sentido de favorecer, promover, e proteger em alguns casos, a diversidade das expressões que existem.
2. Qual é a importância desta Convenção para o Brasil?
O Brasil foi um país muito ativo na preparação e rápido na ratificação da Convenção. E isso é importante para o Brasil por várias características próprias, por ser um país do hemisfério Sul e por ter uma identidade cultural forte, mas que é minoritária no mundo frente ao inglês e à força econômica dos países europeus, por exemplo. A importância da Convenção para o Brasil é realmente salvaguardar e fazer de sua cultura uma ferramenta para o seu desenvolvimento.
3. O que significa a realização do Seminário Brasil-Canadá sobre Diversidade Cultural para as discussões sobre o tema?
Este é um dos primeiros seminários no mundo para discutir as conseqüências e as formas práticas de implementar a Convenção para a Proteção e a Promoção da Diversidade das Expressões Culturais. Essa Convenção precisa da elaboração de um plano de trabalho, de um plano de ação no âmbito nacional. É isso o que importa agora. E a troca de experiências com o Canadá é bem interessante, porque esse é um país muito ativo e dinâmico nesta área de proteção da diversidade cultural, também pela razão de certa forma uma cultura minoritária na América do Norte, frente aos Estados Unidos. E também pelo fato de ter dois idiomas em seu território (inglês e francês) e várias minorias e expressões culturais dentro do país. Acho que a troca de experiências sobre as políticas culturais dos dois países e a vontade do Brasil de desenvolver políticas para a sua indústria cultural são aspectos muito importantes, e isso vai pautar o próprio governo brasileiro e os agentes culturais do País.
4. Como a UNESCO no Brasil contribui, na prática, para a valorização da diversidade cultural no País?
Há vários anos a UNESCO no Brasil é parceira do Monumenta, que é um projeto muito importante do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e contribui para salvaguardar e promover o patrimônio brasileiro. Principalmente o patrimônio material e cada vez mais a promoção do patrimônio imaterial. São formas concretas e ancoradas na própria cultura brasileira para lidar com situações como a luta contra a pobreza, o desemprego, a violência e também a degradação de lugares que têm valor de patrimônio mundial, como a cidade de Olinda (PE), o Pelourinho de Salvador (BA), Ouro Preto (MG), Diamantina (MG), São Miguel (RS). Estes são lugares inscritos da Lista do Patrimônio Mundial onde a UNESCO tem não só uma política de proteção do patrimônio mundial, mas de proteção sustentável desses bens, o que significa que há comunidades que vivem disso. Na realidade, o Pelourinho é um exemplo interessante - mas que precisa de mais esforços - onde a cultura baiana desenvolveu uma identidade do próprio estado da Bahia. E, além disso, a conservação dos sítios do patrimônio mundial contribui para o desenvolvimento econômico das cidades. É a contribuição da cultura para o desenvolvimento global de uma região.

