02/09/2006 - Diretora do Escritório OREALC/UNESCO
Entrevista com Ana Luiza Machado, diretora do Escritório Regional de Educação para América Latina e Caribe (OREALC)/UNESCO, sediado em Santiago, Chile:
1) Quais são os maiores desafios da América Latina e Caribe no que se refere à educação?
Ana Luiza - É preciso maior eqüidade e qualidade na educação da região. Hoje poucos têm uma boa educação e muitos têm uma educação de péssima qualidade. Falta equidade em gênero, etnia, pobres, crianças e adolescentes e zona rural. Precisamos de uma educação de qualidade para todos. A América Latina precisa de US$ 125 bilhões para cumprir as metas educacionais. Só com a eliminação da repetência, calcula-se que seria possível conseguir US$ 12 bilhões, o que corresponde a 10% do total necessário ao cumprimento das metas.
2) Como a sra. avalia a condição docente no Brasil?
Ana Luiza - Nós temos hoje mais professores formados, mas é ainda insuficiente o número de docentes qualificados, sobretudo na área de Ciência. Os professores brasileiros estão desmotivados e insatisfeitos com a profissão. Isso acontece em outros países da América Latina, mas no Brasil há uma revolta maior com os salários e as condições de trabalho. Um dos problemas que eu vejo aqui é o fato de muitos profissionais da educação usarem o cargo como trampolim para a carreira política. Falta compromisso com a melhoria da qualidade da educação. No Chile, por exemplo, quem opta pela carreira política perde o cargo. A média de permanência dos secretários e ministros de educação no cargo também é muito pequena. A descontinuidade administrativa é um problema sério na América Latina.
3) Investir na valorização e na avaliação dos professores pode mudar esse quadro?
Ana Luiza - Hoje o aluno repete porque não aprende. Se tivermos professores bem formados, estimulados, alunos valorizados, uma boa relação aluno/ professor, diretores que sejam líderes em suas escolas, a qualidade da educação vai melhorar sim. Quanto à avaliação, não se pode fazê-la sem entendimento. Esse evento é a semente para germinar um diálogo em que as partes cheguem a um consenso nos estados.
4) Qual é a contribuição que a UNESCO traz para esse debate sobre a situação dos professores?
Ana Luiza - A UNESCO produziu importantes estudos sobre questões ligadas ao professor, tais como a carreira, a avaliação, a formação, a saúde e as condições de trabalho desses profissionais. Nós apresentamos uma visão mais ampla e integral da situação do professor, pois não se trata apenas de uma questão de formação. Eu acredito que a maior contribuição da UNESCO é ajudar o Brasil na tomada de decisões sobre a questão docente. Esse evento traz a oportunidade de o Brasil ter informações sobre o que acontece em outras regiões do mundo. Não existe um caminho único na educação, mas sim vários caminhos e alternativas.
5) Como essa discussão pode contribuir para o cumprimento das ações previstas pelo PRELAC (Projeto Regional de Educação para a América Latina e o Caribe) para o período de 2002-2012?
Ana Luiza - É importante que os países implantem reformas educacionais com mais ênfase nas pessoas do que nas estruturas e insumos. As reformas educacionais das décadas de 80 e 90 foram focadas em mudanças nas estruturas ministeriais, no desenvolvimento de materiais, mas esqueceram de ouvir as pessoas que trabalham na área e que estão desmotivadas. As mudanças foram feitas de cima para baixo. O Brasil avançou, por exemplo, na autonomia em alguns estados, mas isso foi feito sem diálogo. O professor precisa ser co-autor dessas reformas.

