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Ano das Nações Unidas para o Patrimônio Cultural

Koichiro Matsuura

Sobre a porta do Museu de Cabul (Afeganistão), devastado por mais de 20 anos de guerras, mãos anônimas afixaram, há poucos dias, a seguinte máxima: "Uma nação está viva quando sua cultura está viva". Esse gesto simbólico confere um significado profundo à resolução adotada pela Assembléia Geral das Nações Unidas em 21 de novembro de 2001, que proclamou 2002 como o "Ano das Nações Unidas para o Patrimônio Cultural".

O patrimônio cultural de um povo é a memória de sua cultura viva. Se expressa de diversas formas, sejam elas tangíveis (monumentos, paisagens, objetos) ou imateriais (línguas, conhecimentos, rituais, musica etc.). Também são múltiplas as origens desse patrimônio. Ao retraçar sua própria filiação cultural, ao reconhecer as diversas influências que marcaram sua história e moldaram sua identidade, um povo torna-se mais capaz de construir relações pacíficas com outros povos, a continuar diálogos iniciados em tempos imemoriais e a forjar seu futuro.

Valorizar o patrimônio cultural e dele cuidar como um tesouro a nós legado por nossos ancestrais e que deve ser transmitido, tanto quanto possível, a nossas crianças, é um sinal de sabedoria. É por isso que devemos continuar a ação normativa, produzindo instrumentos como a Convenção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural - cujo trigésimo aniversário é celebrado nesse ano - que possam proteger eficazmente o todas as formas de patrimônio cultural.

Hoje, o grande desafio enfrentado pela UNESCO, designada agência-chefe desse ano das Nações Unidas, é o de conscientizar os poderes públicos, o setor privado e a sociedade como um todo, de que o patrimônio cultural não é somente um instrumento de paz e reconciliação, mas também um fator de desenvolvimento. São numerosos os exemplos nos quais uma nova abordagem da gestão do patrimônio cultural favoreceu o crescimento econômico criando oportunidades de emprego para as populações locais, seja por meio do artesanato, do turismo cultural ou do surgimento de novas profissões, assim como de novas expressões da criatividade.

É preciso, portanto, incitar a todos os cidadãos a tornarem-se atores da conservação e valorização do patrimônio da humanidade. É por meio de uma conscientização coletiva e de uma crescente mobilização e ações a favor dos valores do patrimônio cultural, especialmente com a participação dos jovens, que o Ano das Nações Unidas para o Patrimônio Cultural alcançará sua dimensão completa.

Daí a importância de associar o patrimônio cultural às políticas de desenvolvimento e também a importância de demonstrar, como no caso da Bósnia-Herzegovina, no Cáucaso ou no Camboja, o quanto esse poderoso símbolo da identidade pode se tornar um fator de reconciliação nacional - desde que seja revitalizado nas mentes das pessoas não apenas como testemunho de um reconhecido passado comum, mas como o fundamento de um futuro compartilhado.

Koichiro Matsuura

Maiores informações sobre o Ano das Nações Unidas para o Patrimônio Cultural: http://www.unesco.org/culture/unych/


     

       

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