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Dia Internacional da Tolerância

Koichiro Matsuura

16 de Novembro de 2003

A 16 de Novembro de 1995, data do quinquagésimo aniversário da Organização, os Estados-membros da UNESCO adoptavam uma Declaração de Princípios sobre a Tolerância na qual afirmavam nomeadamente que a tolerância, nem concessão nem indulgência, se fundamenta no respeito e na apreciação da riqueza e da diversidade das nossas culturas, dos nossos modos de expressão e das nossas maneiras de exprimir a condição humana.

A UNESCO alinhava assim com a comunidade internacional, marcando o reconhecimento, através do princípio da tolerância, dos direitos universais da pessoa humana e das liberdades fundamentais do outro.

Este Dia Internacional de reflexão colectiva adquire hoje significado renovado, porque os paradoxos da tolerância, sabemo-lo, são imensos: como explicar, por exemplo, que possa ser moralmente aceitável permitir coisas consideradas como moralmente erradas? Como aceitar, sem cair num profundo cepticismo, que todos os valores e verdades são relativos e que a tentação da universalidade é apenas ilusória? Dever-se-ia então, em nome da tolerância que proclamam as sociedades democráticas, renunciar à busca da verdade e aceitar tudo tolerar, incluindo o intolerável?

Estas questões são reais. Elas estão no centro da nossa modernidade inquieta nos seus valores e certezas e continuam a iluminar uma das questões mais prementes do nosso tempo, a da relação entre tolerância e pluralismo. Porque se o pluralismo não garante a tolerância, em contrapartida, a rejeição do pluralismo é certamente um dos factores mais importantes na escalada da intolerância.

A sociologia contemporânea ensinou-nos que os valores que nos animam são não apenas múltiplos, mas igualmente competitivos e contraditórios, sem uma medida padrão possível do que é bom e do que é justo. Aprendemos igualmente que a tolerância e o pluralismo reforçam a democracia, facilitando desse modo o pleno exercício de todos os direitos humanos e constituindo assim uma sólida fundação para a sociedade civil, a harmonia social e a paz.

Contra o intolerável da intolerância, é preciso estarmos certos dos valores fundamentais que proclamamos e que devemos defender. É na base deste "consenso razoável", favorecendo as sociedades abertas e os seus valores fundamentais de democracia e de respeito pelos direitos humanos, que podemos sem dúvida escapar a um relativismo dos mais destrutivos.

Com efeito, nenhuma sociedade está a salvo dos perigos inerentes à ausência de tolerância e à violência que esta pode engendrar. As forças do nacionalismo agressivo, a ausência de tolerância religiosa e o extremismo étnico continuam a apresentar novos desafios. A tolerância não é portanto indiferença. A tolerância deve também ser activa, combativa e capaz de auto-crítica.

Não podemos assim perder de vista o processo de aquisição do direito à tolerância e o dever de defendê-la. O que significa, em particular, tomar medidas para fazer face a todas as manifestações de ódio e de intolerância ou aos actos de violência, promover e reforçar a coexistência e as relações harmoniosas entre grupos étnicos, religiosos, linguísticos e outros, e assegurar que os valores do pluralismo, do respeito pela diversidade e da não discriminação sejam promovidos eficazmente.

É minha profunda convicção que este compromisso é inseparável de uma acção em prol do diálogo entre culturas. É com efeito num tal quadro que se pode desenvolver plenamente a capacidade das culturas para se entenderem sobre um conjunto de valores comuns. Promover este diálogo é um acto de confiança na disponibilidade dos seres humanos para elaborar, pela reflexão e pelo diálogo, normas éticas universalmente válidas. Devemos honrar e manter viva esta confiança, que está na essência do mandato da UNESCO desde a sua fundação.

O nosso século, que agora começa, necessita de encontrar um sentido, de criar uma percepção partilhada das coisas e dos acontecimentos, a fim de resolver as tensões que o atravessam. Acredito que podemos consegui-lo através de um diálogo aberto e permanente. Possa este Dia Internacional conduzir cada um de nós a abrir os canais deste diálogo, no qual está em jogo nada menos que o futuro da Humanidade.

 

Koïchiro Matsuura

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