Por que não fazer já?
Notícia publicada, na Folha de S. Paulo, no dia 19 de janeiro de 2005
JORGE WERTHEIN
Quando temos um desafio, tratamos de identificar as suas características e de procurar saber como responder a ele. Se todos estão de acordo, cabe agir o mais rápido possível, porque a história não espera; o tempo não resolve o problema das sociedades -ele só faz os desafios se tornarem ainda mais difíceis. Assim, o adiamento tem custos crescentes.
Ao longo do ano de 2004 o Brasil teve mais alguns sinais de que a sua educação precisa de melhoras urgentes. O balanço do ano passado aponta para as mesmas direções, que se manterão neste ano se não agirmos vigorosamente.
O "Relatório de Desenvolvimento Juvenil" da Unesco apontou as desigualdades, sobretudo raciais, e as deficiências de qualidade educacional. Por sua vez, o Índice de Desenvolvimento Humano revelou que o Brasil caiu da 65ª para a 72ª posição no mundo. A taxa de analfabetismo seria de 13,6% ou de 11,8%, no último caso melhorando o posicionamento do país, mas, de qualquer maneira, evidenciando um nível incompatível com o desenvolvimento brasileiro.
Veio, em seguida, o "Relatório Mundial de Monitoramento sobre Educação para Todos", também da Unesco, no qual o Brasil apareceu em situação desfavorável. Embora situado no grupo de países próximos de atingir algumas das metas fixadas para 2015 em Dacar (Senegal), o país ainda enfrenta problemas para cumprir outras, em especial a qualidade do seu sistema de ensino. Com isso, ficou em 72º lugar entre 127 países.
Fazemos o mais fácil, matricular crianças na escola, mas não o mais difícil, que é levá-las a aprender de verdade
A situação brasileira é melhor na educação primária universal (32º lugar), mas não acompanha o ritmo na alfabetização de adultos (67º), na paridade de gêneros (66º) e na taxa de permanência de alunos até a quinta série (87º). Isso significa que muitas crianças entram na escola e saem pouco depois.
Ao contrário de Argentina, Cuba e Chile, na América Latina, o Brasil não está próximo de atingir todas as metas, mas somente algumas.
Por fim, veio o Pisa 2003, uma avaliação internacional de compreensão de textos, matemática e ciências. O Brasil continuou no nível 1, com os alunos sendo capazes de realizar apenas tarefas simples. Na média, em relação a 2000, teve pequena melhoria, estatisticamente não significativa. Ao mesmo tempo, mostrou que os melhores alunos tiveram maior rendimento, porém houve uma queda do desempenho nos níveis inferiores. Em outras palavras, aumentaram as desigualdades, já tão acentuadas. Como essas desigualdades se compensam, o país ficou quase na mesma, situando-se nos últimos lugares, junto com a Indonésia e a Tunísia.
Essa sucessão de pesquisas internacionais mostra que fazemos o mais fácil -matricular crianças na escola-, mas não o mais difícil, que é levá-las a aprender de verdade, numa escola democrática. Por isso mesmo falta educação para todos.
Quanto a essas questões, a nação está de acordo: as deficiências apontadas são sempre as mesmas, elas são graves e é preciso atacá-las. Se avançar lentamente é ficar distante das metas, ficar parado é andar para trás. Por que, então, não começar a fazer já, se existe esse consenso nacional?
A luz da esperança se acende com declarações como a do presidente Lula, ao abrir a 4ª Reunião do Grupo de Alto Nível do Programa Educação para Todos, ocorrida em Brasília, em novembro passado. "Estamos comprometidos até a alma com o cumprimento das Metas do Milênio, principalmente no que diz respeito à educação e ao combate à pobreza", afirmou.
Nunca a verdade foi tão cristalina em relação aos desafios que devem ser enfrentados. O porte econômico do Brasil não sinaliza impossibilidades, como ocorre com os países menores que são vizinhos seus nas posições nos rankings acima. Há talentos, consensos e visões lúcidas. Como disse o presidente na mesma ocasião, "se todos nós, governantes, analisássemos a aplicação de recursos na educação como investimento, e não como simples gasto orçamentário, certamente todos nós poderíamos fazer mais do que estamos fazendo".
Tem razão, mas não basta o presidente, é preciso o firme empenho de todo o Estado e da sociedade. Além disso, o país voltou a crescer. Assim, é hora de fazer já, porque o tempo não espera. E as oportunidades podem não se repetir.
Jorge Werthein, 63, sociólogo, doutor em educação pela Universidade Stanford (Estados Unidos), é o representante no Brasil da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura).

