Educação contra a Violência
Artigo publicado na Cidadania-e no dia 23 de junho de 2004
* Jorge Werthein
Há muitos anos que a UNESCO empreende uma luta sem tréguas, não somente para erradicar o analfabetismo em todo o mundo como também para garantir que os países-membros da Organização executem uma política de educação para todos ao longo de toda a vida.
Trata-se de uma luta árdua, com matizes de utopia. À primeira vista, parece impossível vislumbrar um mundo onde todos saibam ler e escrever e tenham acesso a escolas. No entanto, em vista dos progressos alcançados nos últimos anos, em várias partes do mundo, essa perspectiva começa a afigurar-se cada vez mais como possível.
É bem verdade que o empenho da UNESCO e dos governos de seus países-membros conta, hoje mais do que nunca, com uma espécie de fator acelerador: a mundialização das relações econômicas e das atividades humanas. Em um mundo globalizado, evidencia-se como contraditório que as nações ampliem seus laços comerciais enquanto suas respectivas populações permanecem distantes em termos sócio-culturais. A comunicação e o intercâmbio são possíveis, de forma equânime e igualitária, somente entre as nações consideradas desenvolvidas, que são a minoria. A continuidade desse modelo de dominação e excludência, onde uns podem e sabem mais que outros e onde a desigualdade é a principal regra do jogo, projeta conseqüências imprevisíveis para o futuro.
Nesse cenário, a educação apresenta-se como uma alternativa, não para operar milagres, mas para formar cidadãos em condições de enfrentar a crise, em um mundo de incertezas e perplexidades. Será pela educação - e por extensão pela valorização da cultura - que se evitará ou ao menos se atenuará a desigualdade social entre pessoas e nações. Evitando-se ou amenizando as desigualdades, estaremos combatendo também uma de suas principais conseqüências: a violência.
No relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século 21, organizado por Jacques Delors e intitulado "Educação - Um Tesouro a Descobrir", destaca-se que "o maior risco (da interdependência planetária e da globalização) é provocar uma ruptura entre uma minoria apta a movimentar-se neste mundo novo em formação e uma maioria que começa a sentir-se um joguete dos acontecimentos, impotente para influenciar o destino coletivo, situação que pode provocar recuos democráticos e revoltas generalizadas."
Pesquisa recente da UNESCO, "Mapa da Violência: Os Jovens do Brasil", apresenta dados preocupantes ao colocar o Brasil no deplorável quinto lugar em um ranking mundial de taxas de óbito por violência conjunta (acidentes de transporte, suicídios, homicídios e outras violências), entre jovens de 15 a 24 anos. O Brasil aparece abaixo apenas de Colômbia, Rússia, Venezuela e Estônia e logo acima dos Estados Unidos, que ocupam o sexto lugar.
Observa-se, por meio dessa pesquisa, que fatores de diversas ordens influenciam o destino de milhares de jovens, mas que alguns deles parecem ter papel mais marcante: a pobreza reinante; as crescentes dificuldades de inserção no mundo do trabalho; os problemas da escolarização e do preparo profissional; a falta de perspectivas; a cartelização expansiva da delinqüência e da droga; os diversos conflitos e violências (raciais, étnicas, econômicas etc.) no mundo; a impunidade e a perda de confiança na efetividade do sistema jurídico; os vazios e conflitos da democracia e dos partidos políticos, que levam a um profundo desinteresse.
Em que pese a situação preocupante que vive o Brasil, é importante destacar algumas perspectivas que, aos poucos, começam a ganhar terreno no plano das políticas públicas. Por um lado, o Brasil deu enorme avanço no que se refere à garantia de escola para todos. Mais de 95% das crianças brasileiras na faixa etária do ensino obrigatório estão efetivamente nas escolas. Adicione-se a isso a notável expansão do ensino médio, criando oportunidades para a juventude brasileira edificar um projeto de vida mais digno. Além disso, as ações que se desenvolvem sob a égide do Plano Nacional de Direitos Humanos revestem-se de características que apontam para cenários construtores de uma sociedade mais humana e sem violência. Fortalece essa tendência o combate às drogas e à AIDS nas escolas, cujos resultados já se tornam transparentes.
Para concluir, parece evidente que vivemos também uma globalização de conflitos e preocupações, o que torna imprescindível, nas palavras de Federico Mayor, Diretor Geral da UNESCO, uma "globalização da ética". Portanto, a política educativa deve ser diversificada o bastante de forma a não contribuir para a exclusão social, seja de natureza econômica (a mais comum) ou de natureza intelectual (valores morais, espirituais, culturais, cívicos). Resume bem o "Relatório Delors": "A educação não pode, por si só, resolver os problemas postos pela ruptura (onde for o caso) dos laços sociais. Espera-se, no entanto, que contribua para o desenvolvimento do querer viver juntos, elemento básico da coesão social e da identidade nacional."
* Jorge Werthein, 57 anos, sociólogo argentino, é Representante da UNESCO no Brasil

