Universidade Futuro
Artigo publicado em 29 de janeiro de 2004 no Jornal da USP
* Jorge Werthein
Tratar da universidade brasileira frente ao futuro significa necessariamente abordar o marco histórico da Universidade de São Paulo. Foi ela a primeira semente que , plantada em solo nacional , germinou e veio a florescer e frutificar. O Estatuto das Universidades Brasileiras , de 1931 , não teve suas intenções plenamente realizadas na Universidade do Rio de Janeiro , que não chegou a implantar sua espinha dorsal , a Faculdade de Ciências , Letras e Educação. Ao contrário , o decreto de 25 de janeiro de 1934 , de Armando Sales de Oliveira , deu origem à USP como instituição integral , composta , inclusive , pela sua Faculdade de Filosofia , Ciências e Letras. Cabe recordar as palavras entusiásticas de Fernando de Azevedo , membro da comissão que elaborou o seu plano: "Foi... a Universidade de São Paulo a primeira instituição em que se verteu , no Brasil , a caudal de inquietação que os homens possuem em face da natureza , da vida e de seus problemas , e que nasceu , como a Academia Platônica , na Grécia , e a Universidade , na Idade Média , da convicção de que homens de responsabilidade cultural devem ser despertados interiormente para a especulação , a pesquisa e o método experimental ou , em poucas palavras , 'para viver da verdade e de sua investigação'" .
A inspiração humboldtiana de Azevedo é clara e , embora sem nostalgia ou regressismo , merece ser lembrada nos tempos pós-modernos , em que , segundo Lyotard , a legitimação do ensino e da pesquisa passa a fazer-se pela performatividade , tendo em vista o melhor desempenho do sistema social e a competitividade internacional. É interessante recordar também que a USP , em um mundo menos e diferentemente globalizado , acertou o nosso relógio do conhecimento , buscando cientistas no exterior , que pesquisaram o Brasil e formaram mais de uma brilhante geração de estudiosos , exemplo a repensar e a seguir.
De fato , a universidade em sua origem era uma instituição internacional , na escala de comunicação medieval. Utilizando inicialmente o latim , a instituição procurava recuperar o conhecimento , que progredia a passos lentos e se desvanecia na memória dos precários registros anteriores ao papel e à imprensa. Já naquele período a universidade , não sem conflitos e dilemas , se inseria nas sociedades , exercendo papéis de grande relevância. Transplantada para o Novo Mundo , veiculou as idéias da Ilustração , que , embora importadas como plantas exóticas , viriam a produzir o fermento de revoluções e transformações sociais.
Esta dualidade , nas Américas , de instituição importada e , ao mesmo tempo , de veiculadora de um saber transformador , ressalta a necessidade dos países em desenvolvimento no sentido de ter uma universidade sua , mas não uma universidade isolada , superada pelos acontecimentos e tendências mundiais. Ser particular sem deixar de ser ecumênica e ser ecumênica sem deixar de ser significativa para o seu contexto imediato é duplo desafio , discutido pela Conferência de Paris , em 1998 , organizada pela UNESCO.
Aquela Conferência enfatizou não só as relações de compromisso entre a universidade e o seu entorno histórico-social , mas também a sua integração com os demais níveis educacionais. É possível interpretar que a função de serviço se realiza tanto pelo ensino , quanto pela pesquisa , quanto , ainda , pela própria extensão. Ademais , é preciso ter sempre em mente que a universidade constitui uma parte da educação superior. Em circunstâncias cada vez mais diversificadas , este nível educacional necessita de plasticidade para responder às necessidades que lhe são postas. Desse modo , o pensamento deve ser abrangente , já que a universidade e a educação superior padecem das limitações do sistema educacional e da sociedade , ao mesmo tempo em que têm a missão de contribuir para ambos.
Portanto , a vocação da universidade , tal como a concebemos , é a do comprometimento com a sua realidade , seja esta imediata , na sua região e no seu país , como , ainda , no âmbito internacional. Como antena sensível , capta e deve captar as grandes tendências , discussões e alternativas do mundo em que vivemos , oferecendo sua contribuição para o desenvolvimento. Cabe-lhe também preparar os trabalhadores para a sociedade do conhecimento , sob pena de perda de espaço no processo de mundialização , de empobrecimento do país e de aprofundamento das disparidades sociais. Nesse sentido , cumpre-nos lembrar a conferência da UNESCO chamada de Paris + 5 que , em 2003 , revisitou as conclusões de 1998. Inserida nas encruzilhadas da história e com a sua vocação ecumênica , a "educação superior sem fronteiras" surge como uma realidade. Seu papel é crescente nas sociedades e no desenvolvimento sustentável , suscitando a necessidade de várias formas de cooperação Sul-Sul e Norte-Sul , de modo a preencher o hiato de conhecimento. Todavia , como a função da educação superior é cada vez mais ampla e vital para todos , surgem nuvens escuras , que anunciam este espaço global como arma de dois gumes. Afinal , a educação superior é um serviço público ou não?
Esta é uma discussão arriscada , que não pode se restringir aos pensamentos desejosos e que , como se sabe , poderá ser decidida pelos governos sem maior participação dos educadores. Além de uma atitude ativa de repúdio à mercantilização da educação superior , é indispensável que as universidades tenham coerência entre pensamento e ação e que reforcem cada vez mais as contribuições sociais à coletividade. Por outro lado , cabe-nos destacar como profundamente preocupante o fato de a liberalização da educação superior como um serviço vendável confiar nas supostas vantagens da mão invisível do mercado. Como a história ensina , esta mão , embora invisível , obedece a vontades determinadas. Assim , a interação desigual entre as universidades dos Hemisférios Norte e Sul , dos países desenvolvidos e em desenvolvimento pode contribuir para o apartheid cultural e , mesmo , para a extinção daquelas consideradas menos competitivas. Se , por um lado , cabe reconhecer que a educação oferece significativos retornos econômicos , é inadmissível , por outro lado , ter uma postura reducionista que ignore a relevância social e cultural das instituições educativas , como forma de descoberta dos contextos específicos e de alcance de identidade social.
Da mesma forma que temos optado inúmeras vezes pelo caminho da igualdade , da democracia , da paz e do desenvolvimento na história da educação superior , precisamos reunir forças para prosseguir a caminhada. A história da USP serve de base para refletir sobre a missão da universidade , entrelaçando as vocações de enraizamento na sua terra e de projeção dos seus ramos por todo o mundo. P ensar a universidade para o século XXI implica duplo movimento: o de partir da nossa realidade , para enriquecê-la com o amplo conhecimento disponível no mundo , e o de voltar a ela , focalizando os aspectos imanentes à nossa realidade , de modo a inseri-los no que lhes transcende. Esta viagem de ida e volta permite que tenhamos a sintonia das necessidades de um país em desenvolvimento , sem jamais perder de vista o processo de mundialização que não nos pergunta se dele queremos participar.
Além disso , as relações entre a instituição universitária e o mercado , no quadro da performatividade , poderiam fazer o ideal humboldtiano parecer uma relíquia arqueológica. No entanto , a indispensável preservação do status da educação superior como bem público , frisada por Paris + 5 , faz um contraponto ao discurso que reduz o desempenho universitário à vendabilidade do conhecimento e a um labirinto de números. Nesse sentido , cabe colher as lições da história , inclusive da refuncionalização da Faculdade de Filosofia , Ciências e Letras. Universidade é educação , é contribuição significativa no espaço e no tempo e , necessariamente , tem fundamentos filosóficos que definem a formação do homem , da sociedade e da história.
*Jorge Werthein é doutor em Educação pela Universidade de Stanford (EUA) e Representante da UNESCO no Brasil (Organização das Nações Unidas para a Educação , a Ciência e a Cultura).
Azevedo , Fernando de. A cultura brasileira. 4ª ed. Brasília: Ed. Universidade de Brasília , 1963 , p. 679.

