Você está aqui: Página Inicial Mídia Opinião Artigos Publicados do Representante da UNESCO no Brasil Ano de 2004 Educação, Ciência e Tecnologia: por uma Política de Estado

Educação, Ciência e Tecnologia: por uma Política de Estado

Artigo publicado no Correio Braziliense no dia 22 de setembro de 2004

* Jorge Werthein
** Célio da Cunha

Há mais de 70 anos, Fernando de Azevedo, ao redigir o Manifesto dos Pioneiros da Educação, ressaltava em seu preâmbulo  que, na hierarquia dos problemas de uma nação, nenhum sobreleva em importância ao da educação. Se, àquele tempo, a visão dos pioneiros era de impressionante atualidade, nos dias de hoje, ela converteu-se em imperativo nacional. As nações que não conseguirem edificar um substrato comum de educação e conhecimento não poderão avançar num mundo crescentemente competitivo. No Brasil, em que pese os percalços históricos de sua educação, começam a surgir sinais alentadores  que apontam em direção a uma visão renovada sobre o papel estratégico da educação e da ciência.

Dois livros recentemente organizados e lançados pela UNESCO, em São Paulo, sobre o que pensam economistas e empresários sobre os investimentos em educação, ciência e tecnologia, mostram uma nova consciência emergindo com lucidez e objetividade. Os artigos e depoimentos, com base em dados de pesquisas e reflexões maduras, destacam a essencialidade da educação e do conhecimento, bem como de suas aplicações no processo de superação da pobreza e da desigualdade. Não se trata de uma educação exclusivamente voltada para a competitividade, mas de uma educação que revele talentos e desenvolva as potencialidades do educando.

Há um reconhecimento generalizado quanto à necessidade de abordagem integrada da educação, da ciência e da tecnologia. São áreas interdependentes e intercondicionantes que devem convergir esforços e integrar propostas. Reivindica-se um projeto de país, uma política de Estado construída com ampla participação. Nessa política, deve-se privilegiar a educação básica - considerada a pedra angular do processo -, a produção de conhecimentos e a inovação.

O nosso tempo é de inovação e mudança em ritmo nunca antes visto, o que requer qualidade e agilidade  dos sistemas de ensino, ciência e tecnologia. Mais do que isso, requer uma educação inventiva e criadora, que abra a mente dos nossos alunos. Como diz Jeffrey Sachs, sociedades que têm uma massa crítica de idéias tecnológicas, podem decolar rumo ao crescimento auto-sustentado. Esse processo começa por uma escola de qualidade. Devido a isso, empresários e economistas consideram impreterível melhorar a qualidade da educação básica e articular a cooperação entre os centros produtores de conhecimento (universidades e institutos de pesquisa) e as empresas.

Quando se fala em articular  universidades e centros de pesquisa com os setores produtivos, alguns temores sempre surgem. Todavia, se atentarmos para a advertência de M. Castells de que a centralidade da revolução tecnológica que se opera em escala mundial está na aplicação do conhecimento,  sobressai a urgência de transformar os conhecimentos gerados em tecnologias e patentes. É claro que isso requer uma política industrial que crie mecanismos de incentivo à inovação e induza a cooperação entre universidades e centros de pesquisa. Sob esse aspecto, empresários e economistas lembram os exemplos da Embrapa, Embraer, Petrobrás, Unicamp, USP, Coppe, entre outros.

É difícil dimensionar os efeitos de uma política de Estado para as áreas de educação, ciência e tecnologia. Eles são multidimensionais e têm força para criar um estado de espírito favorável às mudanças que há tempos vêm sendo reivindicadas pela sociedade brasileira. Uma política de Estado, com objetivos claros e de longo prazo, construída de forma democrática, por consensos e acordos pode, inclusive, melhorar a auto-estima do país, fortalecendo seu capital social e cultural.  Uma política de Estado assim concebida tem ainda a vantagem de estabelecer referências e visualizar horizontes, conferindo maior objetividade às crenças e esperanças de uma nação.

Os artigos e reflexões de empresários e economistas aumentam a convicção de que há condições para a construção de um pacto pela educação, ciência e tecnologia. Um pacto que leve a uma política de Estado. Estamos convictos que pode ser uma alternativa para transformar essas áreas em alicerces fundantes de um novo país.


* Jorge Werthein é doutor em Educação pela Universidade de Stanford (EUA) e Representante da UNESCO no Brasil.
** Célio da Cunha é Assessor Especial da UNESCO no Brasil.

 

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