Você está aqui: Página Inicial Mídia Opinião Artigos Publicados do Representante da UNESCO no Brasil Ano de 2004 Mídia e Educação de Qualidade para Crianças e Jovens

Mídia e Educação de Qualidade para Crianças e Jovens

Artigo publicado em abril de 2004 no site www.midiativa.org.br.

* Jorge Werthein


É da maior importância o fato de o Brasil , mais precisamente a cidade do Rio de Janeiro , estar sediando a Cúpula Mundial de Mídia para Crianças e Adolescentes. Pela primeira vez em seus quatro anos de existência , a Cúpula acontece em um país da América Latina, região com expressivo número de crianças e jovens , muitos sem acesso à educação de qualidade , ao conhecimento e a informações imprescindíveis para o seu desenvolvimento humano e social. O Brasil e outros países latino-americanos , é preciso frisar , enfrentam graves problemas na área de infância e adolescência , mas vêm avançando no sentido de defender os direitos de suas crianças e juventude.

Um bom exemplo de tais avanços foi a implantação do Estatuto da Criança e do Adolescente brasileiro , considerado um dos mais modernos do mundo. Mas é preciso avançar mais e produzir conhecimento de qualidade direcionado ao público mais jovem , garantindo assim que os meninos e meninas que vivem hoje sejam preparados para construir um futuro melhor. A discussão do assunto por profissionais da indústria global de mídia , pesquisadores e educadores dos cinco continentes dará , sem dúvida alguma , a projeção e a amplitude que o assunto merece. Em um mundo globalizado e marcado por gritantes desigualdades sociais e econômicas , faz-se necessário construir uma mídia que represente as diferentes identidades e culturas de crianças e jovens de origens distintas.

Na mesma semana em que o Rio sedia a IV Cúpula , os 190 Países - Membros da UNESCO coordenam no mundo todo a Semana de Educação para Todos - de 19 a 25 de abril - , uma tentativa de mobilizar as nações para a importância de uma educação de qualidade , que assegure a expansão da educação infantil , garanta o ensino fundamental a todas as crianças , amplie o acesso dos jovens à educação e reduza os índices de analfabetismo. Nessa tarefa de mobilização , os meios de comunicação têm importância fundamental por sua capilaridade , por sua capacidade de difusão e disseminação da informação junto aos públicos mais distintos. Em nome da UNESCO , conclamo a todos os profissionais de mídia , educadores e pesquisadores a participarem de um movimento supranacional , apartidário e não-discriminatório em defesa dos direitos das crianças e jovens a uma educação de qualidade.

A UNESCO se sente honrada em contribuir para que representantes de grande número de países possam reunir-se e dar mais um passo no debate sobre mídia e juventude , trocando experiências sobre o uso criativo e positivo da mídia para a aprendizagem e o desenvolvimento harmônico de crianças e jovens. Esse debate permitirá revelar a visão dos vários atores sobre temas essenciais para que nossos jovens possam assumir o papel reservado a eles na construção da sociedade que todos desejamos. A 4ª. Cúpula tem um papel importante a cumprir no debate da questão fundamental de como conciliar a necessidade de que programas de qualidade voltados para entretenimento e conteúdo obtenham grande audiência e atendam aos interesses de anunciantes. Sabemos que bons programas usualmente atraem boas audiências. Do ponto de vista dos produtores , programas de qualidade são vistos como envolvendo alto custo , às vezes com retorno incerto.

É por isso que uma política pública de incentivos é componente essencial de uma estratégia de promoção de mídia de qualidade para crianças e jovens. Na ausência de uma tal estrutura de incentivos , teremos que contar com a boa-vontade dos produtores e com o gradual processo de desenvolvimento cultural da sociedade que formará audiências qualificadas , passando , então , a garantir retorno para investimentos em mídia de qualidade. É nossa responsabilidade refletir sobre o ônus social que a ausência de políticas de incentivos a mídia de qualidade poderá acarretar para o desenvolvimento de nossa sociedade.

Chamo também a atenção para outros desafios além dos de natureza econômica. A industria da mídia terá que enfrentar sempre os grandes desafios que são produzir conteúdos e formatos que sejam sempre capazes de atrair o interesse das juventudes e promover sua participação efetiva na criação e produção de programas voltados para esses segmentos. Porque se faz necessário levar em conta as diversidades e especificidades que caracterizam a juventude. É preciso , em outras palavras , considerar as juventudes - no plural - reconhecendo que os jovens assumem faces diferentes conforme seus múltiplos projetos e condições materiais e culturais que os cercam.

Há jovens ligados ao movimento estudantil , ao voluntariado , às pastorais , a grupos culturais. Jovens que vivem nas cidades , jovens que vivem no meio rural. Mas também existem os jovens ligados ao tráfico e às gangues. Todos diferentes entre si , com características , demandas e necessidades próprias. Distintos grupos de jovens apresentam particularidades culturais , várias identidades , diferentes formas de agir , pensar e consumir. Em alguns casos , conseguem construir identidades democráticas; em outros , produzem culturas de intolerância , homofobia e racismo. Alguns são otimistas , outros se sentem abandonados , desamparados , desencantados , não acreditando nas instituições sociais.

É somente considerando as diferenças e ouvindo os jovens , criando mecanismos efetivos de participação que se viabiliza o projeto de uma sociedade mais igualitária. Afinal , como defende Delors , a juventude é uma etapa crucial para o desenvolvimento da capacidade crítica e da autonomia do indivíduo -- pré-requisito para a realização do projeto de uma sociedade solidária e menos desigual.


* Jorge Werthein é Doutor em Educação pela Universidade de Stanford (EUA) e Representante da UNESCO no Brasil.

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