Livros à vista
Artigo publicado no Correio Braziliense no dia 24 de novembro de 2004
Jorge Werthein *
Na quarta-feira, 10 de novembro de 2004, o Brasil deu um importante passo rumo a uma sociedade mais igualitária e justa: em cerimônia no Palácio do Planalto, que reuniu os Ministérios da Cultura, Educação e Fazenda e também o Senado Federal, anunciou-se a extinção da cobrança do PIS/Pasep e Confins na produção e comercialização de livros por editoras, distribuidoras e livrarias. A notícia teve pouca repercussão na imprensa, mas seu impacto certamente merecerá mais manchetes.
"Um país é feito de homens e livros", sentenciava Monteiro Lobato, já se vão cem anos. Mas a importância da lição daquele escritor e político paulista parece ter sido, por vezes, esquecida. Não que faltem ao Brasil grandes homens (e mulheres, naturalmente): Gilberto Freyre, Margarida Alves, Rui Barbosa, Tarsila do Amaral são algumas referências internacionais. Tampouco que lhe faltem livros: nomes como Guimarães Rosa, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Cora Coralina, Euclides da Cunha, Cecília Meirelles, Jorge Amado, Érico Veríssimo entre tantos outros, clássicos e contemporâneos, fazem da literatura brasileira uma das mais ricas e diversas de todo o mundo. Mas o que sim, falta ao Brasil, é promover um efetivo diálogo entre seus cidadãos e seus livros.
O brasileiro lê, em média, 1,8 livro ao ano, enquanto, na Colômbia, a média anual por habitante é de 2,4 livros, 5 nos Estados Unidos e 7 livros por ano na França. Como se não bastasse tão baixo índice, um estudo conduzido pela OCDE em parceria com a UNESCO, em 2000, com alunos de 15 anos, revela que a maioria dos alunos não entende o que lê, é capaz apenas de realizar tarefas simples, como localizar informações específicas no texto, e tem dificuldades em relacionar o conteúdo lido à realidade.
Uma das razões apontadas é o custo elevado do livro brasileiro. Ante um salário mínimo de 280 reais, um livro de 20 reais é um artigo de luxo. A medida aprovada pelo Governo Federal pretende enfraquecer esse argumento. Com ela, espera-se uma redução de 10% sobre o preço dos livros, o que pode não ser suficiente, mas certamente é significativo.
Entretanto, o componente mais significativo da iniciativa levada a cabo pelo Planalto é a construção do Fundo Pró-Leitura, que, se bem direcionado, será dedicado à popularização da leitura, por meio de campanhas publicitárias, abertura e renovação de bibliotecas em todo o país. Essa medida, que espera aprovação no Senado, contribuiria para a formação de uma sociedade leitora, ainda ausente no Brasil, mas fundamental para o desenvolvimento do país. É preciso que o livro deixe de ser objeto de admiração, intocável, sublime do alto de estantes - não raro, cheias de pó - para tornar-se objeto de desejo, de consumo. E se, por um lado, o Governo pode contribuir XXX por meio das escolas, por outro lado, a indústria editorial detém igual ou maior parcela de responsabilidade.
As casas editoriais devem ser capazes não apenas de prover o mercado nacional com livros mais baratos e de qualidade, mas precisam também investir na divulgação do seu produto. Qualquer empresário seria capaz de enxergar a oportunidade expressa pela ampla parcela da população dos cerca de 180 milhões de habitantes com baixos índices de leitura, mas com nível de alfabetização crescente. Uma estatística recente mostra, ademais, que a produção científica brasileira cresceu, em quatro anos, 400%, o que sugere ademais, uma tendência de aumento no consumo de obras mais especializadas. Há, portanto, espaço para crescer em várias áreas. Basta que o país se empenhe em convencer ao consumidor, que ler um livro pode ser tão ou mais prazeroso que tomar um refrigerante gelado ou usar uma sandália da moda.
Com a implementação de políticas públicas de apoio - não apenas políticas fiscais, mas também, e sobretudo, políticas em educação - e engajamento da sociedade, o Brasil será capaz de considerar-se um país de verdade: um país de homens que lêem e escrevem livros, um país de livros que revelam e honram seus homens.
*Jorge Werthein é doutor em Educação pela Universidade de Stanford e Representante da UNESCO no Brasil (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura)

