Paz sem fronteiras

Artigo publicado em 07 de janeiro de 2005 no jornal de Piracicaba e no La nación no dia 31 de dezembro de 2004

Jorge Werthein *
Mais de 240 mil armas recolhidas. Este foi o saldo, até dezembro de 2004, da Campanha Brasileira de Desarmamento, uma das mais bem-sucedidas iniciativas de combate à violência e de promoção de uma cultura de paz já desenvolvidas no Brasil. São armas entregues voluntariamente por cidadãos que resolveram trocar uma falsa garantia de segurança por um projeto sólido de construção da paz. Os estados brasileiros de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul e Pernambuco, em números absolutos, e Sergipe, em termos relativos (proporcional a sua população), foram os recordistas na arrecadação. E já colhem alguns resultados: em São Paulo, os índices de homicídio caíram 18%, enquanto em Curitiba, capital do Paraná, registrou-se uma redução de 27% nas ocorrências.

No Brasil, a campanha conseguiu não só tirar do papel o Estatuto do Desarmamento - sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em dezembro de 2003 - mas também conscientizar fortemente a população e iniciar um importante trabalho de educação para a paz entre as crianças.

Com o apoio de organizações da sociedade civil e de parceiros do setor privado, foi feita uma ampla campanha do assim chamado "desarmamento infantil", fazendo com que milhares de crianças trocassem suas armas de brinquedo por jogos não violentos, livros e revistinhas em quadrinho.

Assim, desencoraja-se a replicação de comportamentos violentos entre as crianças, que acabam por exercer uma influência positiva sobre toda a família, contribuindo para uma sociedade mais pacífica no futuro.

Mas, para que se ponha um fim à violência no Brasil, não basta que atuemos dentro do território brasileiro. Sabe-se que a violência não conhece fronteiras. Mais: ela pode mesmo ser disseminada e ampliada. Não poderemos nos sentir seguros se a violência se alastra entre nações vizinhas e irmãs, que tanto lutam pelo desenvolvimento humano, social e econômico da região.

Tampouco poderemos ter nossas consciências tranquilas sem uma ação coesa em prol da paz. É necessário difundir práticas de sucesso, como a Campanha Brasileira de Desarmamento, e primar pela formulação de uma estratégia regional pela paz. Nações que são parceiras em negociações econômicas, como as do âmbito do Mercosul, podem e devem também unir esforços em defesa da paz.

A violência na região latino-americana tem um perfil comum a todos os países: está concentrada nos centros urbanos, tem no crime organizado um de seus principais fomentadores, é agravada pela dramática exclusão social e atinge principalmente jovens do sexo masculino entre 15 e 24 anos, que, em sua maioria, morrem vítimas de homicídios por armas de fogo.

Isso mostra a importância das campanhas de desarmamento, que ajudem a tornar a população mais consciente da falsa ilusão de que ter uma arma em casa traz segurança. É possível, sim, termos uma expressiva adesão da população dos países latino-americanos, dos governos e das organizações não-governamentais no sentido de promover uma sociedade mais pacífica e menos violenta. Se o problema é comum, não há razão que justifique a limitação territorial das medidas de combate.

É neste sentido que a Unesco no Brasil tem-se esforçado para replicar o sucesso da experiência brasileira em outros países da região. Começou levando a idéia ao governo argentino, que , por meio do Ministério da Educação e Ciência e com grande sensibilidade e rapidez, lançou a campanha "Cambiemos por la paz", iniciada com a troca de armas de brinquedo por outros brinquedos.

Na Argentina, a Unesco vem colaborando com o Ministério do Interior e o Ministério de Educação, que têm se dedicado à construção de uma política nacional de segurança, na qual o desarmamento constitui um dos principais elementos. Com toda a certeza o programa de desarmamento do governo argentino, a ser desenvolvido com o apoio da sociedade civil, terá impacto significativo na mudança de hábitos da população e na redução dos índices de violência.

Segundo estimativas feitas no país, 700 mil famílias argentinas teriam armas em suas casas e haveria 2,2 milhões de armas registradas legalmente, fora outras cerca de 900 mil distribuídas pelo mercado negro. Os números mostram que a sociedade argentina está no caminho certo ao lançar uma campanha nacional de desarmamento, ao promover medidas educativas e ao somar esforços de todos para mudar tal realidade.

O restante da América Latina não pode perder o bonde da transformação social pela construção de um mundo mais pacífico e humano. Se a violência não conhece fronteiras, tratemos de provar que a paz também não!

*Jorge Werthein é doutor em Educação pela Universidade de Stanford e Representante da UNESCO no Brasil (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura)

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