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Uma Final Sem Vencedores

Artigo publicado em 24 de abril de 2004 no Jornal do Brasil

* Jorge Werthein


Há poucos fenômenos populares mais característicos da sociedade brasileira que o futebol. Inúmeros cientistas sociais deste país já analisaram, com muito sucesso, a relevância deste esporte não apenas como mobilizador das massas, mas, também, como modelador de comportamentos e formador de opinião. Nesse sentido, é inconcebível que uma partida de futebol se torne um evento negativo e prejudicial para aqueles que a assistem. Foi esse o caso da final do campeonato carioca do último domingo, entre Flamengo e Vasco.

No Brasil, milhares de jovens se espelham em jogadores de futebol como modelo, enxergando neles um ideal de sucesso pessoal e profissional. Jogadores são, assim, figuras públicas com grande influência sobre a juventude e estão imbuídos de uma grande responsabilidade, já que representam modelos.

No caso do campeonato carioca, o jogo entre Flamengo e Vasco mostrou um claro exemplo de incivilidade, falta de respeito ao outro e, pior ainda, ausência do que se chama "espírito esportivo". Os dois times transgrediram normas básicas, quando jogadores, técnicos, dirigentes, juízes e outros profissionais desprezaram praticamente todas as regras de convívio e tolerância. O que se viu pela televisão, por milhões de telespectadores, e no Maracanã, na frente dos 80 mil torcedores, foi um exemplo da situação de "guerra urbana" vivida no cotidiano pelo povo brasileiro.

Não me refiro unicamente à violência física que gerou a expulsão de um total de seis jogadores da partida, e que poderia, com justiça, ter causado a expulsão de muitos outros. Agressões, provocações, desorganização generalizada, desrespeito a regras de conduta e outras práticas danosas foram vistos em profusão no domingo.

Por que continuamos a tolerar a violência encravada em cada disputa de bola entre os jogadores? Por que assistimos impassíveis à agressividade constante - física, verbal e psíquica? É necessário que profissionais como juízes, jogadores e treinadores dirijam-se uns aos outros com violência e agressividade que seriam mais típicas dos cadernos policiais de nossos jornais? Por que continuamos imóveis frente à violência aparentemente premedita por parte de alguns técnicos, à falta de responsabilidade social por parte de certos dirigentes e à insensatez constantemente demonstrada por vários jogadores?

Seguramente, esta triste exibição de "guerra no futebol" é reflexo de uma realidade social mais abrangente, na qual a violência e a exclusão social tornaram-se fenômenos avassaladores. Mas a impassividade com que assistimos à expansão da violência para todos os campos da vida social é inaceitável. Não é concebível que continuemos aplaudindo este tipo de jogo e que fiquemos imóveis frente a mensagens de agressividade expressas por técnicos de futebol.

Da mesma forma, não podemos continuar como espectadores, diante da violência que invade nossas vidas. Reagir significa, em primeiro lugar, eliminar qualquer forma de violência e intolerância do comportamento individual de cada cidadão. É preciso que combatamos a violência em todas as formas de relações humanas: em casa, na escola, no trânsito, no trabalho. Inclusive no futebol, vitrine diária de nossa realidade social.

Os torcedores, sobretudo os apreciadores do futebol como um esporte associado à arte, à cidadania, à construção de uma cultura de paz, precisam exigir que seus ídolos adotem uma conduta de tolerância, cooperação e responsabilidade em campo. Só assim poderemos resgatar a beleza da arte pela qual o Brasil é elogiado e respeitado em todo o mundo. Só assim será possível retomar a convivência saudável no esporte e dar exemplo às crianças, aos adolescentes e jovens.

São ações deste cunho que nos permitem resgatar os padrões éticos de comportamento que têm sido esquecidos em nossa sociedade. Apesar de ser um fenômeno estrutural, a socialização da violência - expressa neste Flamengo x Vasco - também é influenciada por ações que tomamos em nosso cotidiano, especialmente por nossa imobilidade frente a posições moralmente inaceitáveis, como a violência no futebol. Reagir também significa uma construção de respostas concertadas por parte da sociedade civil organizada, com o fortalecimento de movimentos de caráter não-governamental.

Infelizmente, a partida Flamengo x Vasco não teve nenhum vencedor. Todos perderam para um adversário mais temido: a violência. Há ainda uma outra partida mais importante em jogo: a de nossa vida social. Não podemos nos dar ao luxo de perdê-la também.

* Jorge Werthein é Doutor em Educação pela Universidade de Stanford (EUA) e Representante da UNESCO no Brasil (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).

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