Por Uma Nova Ética no Uso da Água
Artigo publicado em 25 de março de 2004 no Jornal do Brasil
* Jorge Werthein
A dificuldade de acesso à água potável , neste início de século , está nos forçando a repensar nossos conceitos de estabilidade , dependência e responsabilidade , assim como nossa percepção sobre a sustentabilidade do planeta e das futuras gerações. Nos últimos anos , começamos a afastar o falso mito da inesgotabilidade dos recursos hídricos , construímos foros importantes de debate e demos os primeiros passos para assumir um compromisso global para lidar com o problema. Falta-nos , contudo , agregar um componente ético capaz de dar unidade e sustentabilidade a essa mudança.
Mais de cinco milhões de pessoas continuam morrendo anualmente com doenças causadas pela contaminação da água e pela falta de saneamento e de água para fins de higiene. Há hoje 1 , 5 bilhão de pessoas sem acesso à água potável e 2 , 9 bilhões - cerca de metade da população mundial - sem serviços sanitários básicos. Uma das metas do milênio estabelecidas pela ONU , em 2000 , previa a redução pela metade da população mundial sem acesso à água doce e potável até 2015. Para isso , seria necessário levar água encanada a mais de 300 mil pessoas por dia e saneamento básico a mais de 500 mil. A meta não será cumprida. Ao contrário , espera-se que até lá dezenas de milhões de pessoas tenham morrido , incluindo uma média de seis mil crianças por dia.
Declaração Coletiva da ONU lançada em 1999 mostra , por outro lado , que o montante de recursos necessários para levar , até 2009 , água e saneamento a baixo custo para quem não tem , equivale ao que se gasta por ano na América do Norte e Europa apenas com alimentos para animais de estimação , enquanto nos países em desenvolvimento 90% das doenças continuam relacionadas à má qualidade da água. É o dilema ético , mais do que a escassez de recursos hídricos , que aflora e dá perversidade a esse debate.
Como trazer essa percepção ao nível das consciências individual e coletiva? Como fazer do reconhecimento do problema o primeiro passo para um novo pacto de desenvolvimento eqüitativo e socialmente mais justo? A resposta começa pela percepção de que os principais problemas com relação à água estão mais associados a problemas de distribuição e de conhecimento sobre seu uso do que propriamente a quantidades reduzidas desse recurso. Se tivermos em conta que não há vida sem água , e que àqueles a quem se nega a água nega-se também a vida , teremos estabelecido o ambiente ético e solidário sobre o qual devem se mirar todas as nossas ações.
Aprendemos , nestes primeiros anos de reflexão global sobre a água , a encará-la apenas como uma fonte de conflitos , apresentada em termos de catástrofe , escassez e contaminação , sem dar muita atenção ao fato de que esses conflitos reproduzem desigualdades sociais históricas. Precisamos estabelecer uma agenda positiva , capaz de racionalizar o uso da água e ajustar este desafio ético a suas dimensões políticas e econômicas , como instrumento de desenvolvimento e cooperação entre as nações.
Em termos de água para beber , para a irrigação e para a produção de energia , cerca de 40% da população mundial se aproveita de 214 sistemas hidrográficos partilhados por dois ou mais países. A expectativa de que em 2015 quase 3 bilhões de pessoas - 40% da população projetada - vivam em países com dificuldades de garantir água suficiente para atender a agricultura , a indústria e as necessidades domésticas da população é , portanto , um problema transnacional , que exige a interdependência das políticas públicas de gerenciamento dos recursos hídricos e a cooperação estreita entre Estados e sociedade civil , tanto de países desenvolvidos como em desenvolvimento.
Dessa articulação pode surgir um novo sistema de valores , capaz de mostrar que não apenas a sobrevivência da humanidade depende da água , mas que também a conservação dos recursos hídricos e demais recursos naturais passa a depender de uma ação sustentável , coordenada e integrada de toda a humanidade. Aceitar essa idéia é desde já lançar as bases para uma reflexão ética que transcende a própria questão dos recursos hídricos , uma vez que estimula laços de solidariedade e fraternidade que podem ser multiplicados em todas as esferas da vida social. A água , fonte da vida , nos dá hoje a oportunidade de promover essa discussão. Cabe a nós , literalmente , não desperdiçá-la.
* Jorge Werthein é Doutor em Educação pela Universidade de Stanford (EUA) e Representante da UNESCO no Brasil (Organização das Nações Unidas para a Educação , a Ciência e a Cultura)

