O Ensino Médio: Proposições que Traduzem Vontades de seus Atores
Artigo publicado em 24 de maio de 2003 na Revista Terceiro Setor | Ponto de Vista
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*Jorge Werthein A UNESCO no Brasil (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) traz hoje a público, em parceria com o Ministério da Educação (MEC), os resultados da pesquisa "Ensino Médio: Múltiplas Vozes", uma radiografia em profundidade da situação da educação de nível secundária no Brasil. A necessidade dessa radiografia se justifica pela importância deste nível de aprendizagem no processo de formação e de preparação dos jovens para vida, para continuar seus estudos, para o exercício da cidadania e ingresso futuro no mercado de trabalho. Sabe-se que, nos últimos anos, ocorreram vários avanços no ensino médio tanto no que diz respeito à inclusão de amplos e novos contingentes populacionais ao sistema de ensino - tais como os de classes populares - quanto no desenvolvimento de propostas curriculares e pedagógicas que visam aproximar a escola de uma realidade dinâmica e desafiadora. O ensino médio foi o nível de ensino que mais cresceu no Brasil entre 1996 e 2002: o número de matrículas aumentou 52%, totalizando 8,7 milhões de alunos. Vale destacar também a reforma do ensino médio, a qual prevê a renovação e melhoria da infra-estrutura dos prédios escolares, bem como a adoção de um currículo que contemple a interdisciplinaridade e o estabelecimento de vínculos entre os conteúdos curriculares e as demandas políticas, econômicas e sociais. Esse quadro cria uma situação nova, em que a escola, em tese, torna-se mais democrática, ampliando as possibilidades de jovens avançarem nos estudos além da educação básica, conseguirem um bom emprego e exercerem plenamente a cidadania. Porém, novos desafios e problemas se apresentam, compondo um quadro em que o investimento na qualidade de ensino torna-se urgente e prioritário. A pesquisa constatou, por meio de depoimentos de alunos, professores e demais membros das equipes pedagógicas das escolas, que existe uma série de desafios e problemas a serem superados, principalmente no que diz respeito à qualidade de ensino. Atento aos problemas existentes nas escolas brasileiras, o Ministro Cristovam Buarque elegeu a capacitação de professores e qualidade de ensino como duas de suas prioridades máximas. Entre os diversos problemas detectados no estudo, três merecem especial destaque. Em primeiro lugar, a pesquisa aponta para a necessidade de se investir em formação inicial e continuada dos professores. Os dados levantados nas 13 capitais pesquisadas revelam que 60% dos docentes têm licenciatura e que cerca de dois terços do total que participou da pesquisa não têm pós-graduação (especialização, mestrado ou doutorado). A escassez e a precariedade dos laboratórios de ciências é um segundo ponto levantado no estudo e que merece atenção, pois se trata de um recurso pedagógico fundamental no ensino médio - já que são espaços em que os alunos têm a oportunidade de aplicar o que aprendem em sala de aula e podem desenvolver a capacidade de "aprender a aprender", a experimentar. Por isso, é premente equipar os laboratórios, bem como criar condições para que eles funcionem plenamente. Os dados oficiais mostram que 43,1% das escolas brasileiras de ensino médio possuem laboratórios de ciência. Na rede pública, entre 89,9% e 92% dos alunos afirmaram que os laboratórios são pouco usados. A mudança deste quadro pode ser viabilizada por meio da concretização de uma proposta considerada prioritária pelo Ministério da Ciência e Tecnologia: um convênio com o MEC visando dotar as escolas de laboratórios de ciências. Finalmente, é necessário criar estratégias e programas para diminuir a exclusão digital a que estão submetidos alunos e professores da educação média pública. Os computadores e a internet também são pouco utilizados como instrumento pedagógico. O problema é mais acentuado na rede pública: pelo menos para 51% dos estudantes essas ferramentas não são usadas em aula e quase a todos os alunos da rede pública dizem que não aprendem computação na escola. O baixo nível de utilização dos computadores como ferramenta didática pode ser explicado pela falta de familiaridade dos professores com as novas tecnologias de informação. Em seis capitais, entre 10% e 15% dos docentes dizem que não dominam a informática e 40% dos professores ouvidos na pesquisa não têm computador em casa. E, o que é mais grave, desse último percentual, 44,5% também não têm acesso a computadores na sua escola. A superação desse quadro de exclusão digital dos docentes levanta a necessidade de se criar estratégias para que eles possam adquirir esses equipamentos a preços subsidiados, o que requer uma ação conjunta envolvendo os MEC e o Ministério das Comunicações utilizando, por exemplo, recursos do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust). Se dermos respostas a essas prioridades estaremos respondendo as reivindicações e vontades dos atores do ensino médio. Jorge Werthein é Doutor em Educação, pela Universidade de Stanford, EUA, e Representante da UNESCO no Brasil.
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