Por que Precisamos Desarmar a Violência
Artigo publicado em 25 de agosto de 2003 no Jornal do Brasil
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* Jorge Werthein No dia 16 de julho passado, o ator e diretor de teatro paulista, Carlos Calchi, de 30 anos, foi assassinado, no Rio, com um tiro na cabeça após uma briga de trânsito. Uma semana depois, o repórter fotográfico, Luís Antônio da Costa, de 36 anos, também foi surpreendido, em pleno exercício profissional, com um tiro fatal no peito quando fazia a cobertura jornalística de uma ocupação de terra em São Bernardo do Campo (SP). Episódios de violência como esses mostram que a banalização no uso de armas de fogo vem contribuindo para o aumento no número de homicídios e de vítimas inocentes no Brasil. Apesar dos avanços na legislação penal e de importantes medidas de combate à criminalidade adotadas nos últimos anos, o Brasil ainda é um dos líderes mundiais no uso de armas de fogo e um dos países onde mais se mata. Segundo o "Mapa da Violência", feito com base em dados do governo federal, em 62,7% dos assassinatos no País há o uso de armas de fogo. Surpreendentemente, na taxa de óbitos por armas de fogo, o Brasil supera até países de longa tradição nas facilidades de acesso legal às armas: são 18,7 mortes por cem mil habitantes. O uso abusivo e ilegal de armas de fogo vem sendo também uma perigosa ameaça ao desenvolvimento e ao futuro dos jovens brasileiros. O "Mapa da Violência III - Os Jovens do Brasil", de Jacobo Waiselfisz, publicado pela UNESCO no Brasil (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), faz um importante alerta sobre a crescente utilização de armas de fogo na ocorrência de homicídios entre os jovens. Em 2000, as armas de fogo foram a causa de 74,2% dos homicídios de jovens. Quase 20 mil jovens são assassinados anualmente no País. Por outro lado, as pesquisas mostram que os países que adotam políticas mais restritivas de porte e comercialização de armas apresentam índices de óbitos extremamente inferiores ao brasileiro. O Japão, por exemplo, tem taxa de óbito por armas de fogo cerca de 180 vezes menor que o Brasil. A França tem uma das legislações mais rígidas da Europa e, por coincidência, segundo o Viva Rio, apresenta índices baixos de homicídios com armas: nos últimos três anos, ocorreram em torno de mil mortes por ano e cerca de 1.200 tentativas numa população de quase 60 milhões de pessoas. Na França, para se obter autorização para porte de armas de defesa é necessário passar por uma investigação policial. É preciso, portanto, que se tomem as medidas apropriadas para o desarmamento da população e para o fim da venda ilegal de armas no Brasil. Não podemos aceitar o argumento dos que defendem o uso de armas pela população para se defender porque, ao contrário de contribuir para a paz, isso só vem ajudando a aumentar a violência nas ruas, nas escolas e até dentro de casa. Como uma Organização voltada para a construção de uma cultura de paz e para a garantia dos direitos humanos, a UNESCO no Brasil se congratula com o Congresso Nacional pela corajosa decisão de votar o Estatuto do Desarmamento. A proposta é um avanço e o primeiro passo para a proibição da comercialização de armas no Brasil. A UNESCO tem a convicção de que para se mudar uma cultura de violência é preciso ainda investir fortemente na educação e na conscientização da população para os caminhos da paz. Por isso vem desenvolvendo importantes programas como o "Abrindo Espaços" - no Rio se chama "Escolas de paz"-, que consiste na abertura das escolas nos fins de semana para atividades de artes, esportes, cultura e lazer, e em pesquisas sobre violência nas escolas. É hora de reforçarmos o lema :"A paz está em nossas mãos".
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