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O Desafio da Água no Século XXI

Artigo publicado em 05 de dezembro de 2003 no Jornal O Estado de São Paulo

* Jorge Werthein

A publicação deste suplemento é resultado de um duplo desafio assumido pela UNESCO: trazer à discussão a importância da água doce para a humanidade e fortalecer o papel de novos jornalistas capazes de difundir informações sobre o assunto e levar ao conhecimento da sociedade soluções e alternativas que possam ser multiplicadas. Comemoramos em 2003 o Ano Internacional da Água Doce, mas essa é uma discussão que irá se estender para as próximas décadas e gerações, uma vez que a sobrevivência do planeta depende da qualidade da água. Daí a importância desta iniciativa, e de se fazer das celebrações deste ano uma lembrança permanente.

Embora seja um elemento abundante no planeta, apenas 2,53% do total constituem água doce, própria para o consumo humano. Em 2015, quase 3 bilhões de pessoas - 40% da população mundial projetada - devem viver em países com dificuldades de garantir água suficiente para atender a agricultura, a indústria e as necessidades domésticas da população. Trata-se de um problema com implicações políticas, econômicas e sócio ambientais gigantescas, que se reflete, desde já, na pobreza de grande parte da população mundial.

Uma das metas do milênio estabelecidas pelas Nações Unidas, em 2000, previa a diminuição pela metade da população mundial sem acesso a água doce e potável até 2015. Para atingir esses objetivos, seria necessário levar água encanada a mais de 300 mil pessoas por dia e saneamento básico a mais de 500 mil. A meta não será cumprida. Ao contrário, estima-se que até essa data dezenas de milhões de pessoas tenham morrido em decorrência de doenças relacionadas à água, incluindo uma média de 6 mil crianças por dia.

Como, então, gerenciar este recurso finito que tende à escassez e que definirá o futuro da vida no planeta? Quais parâmetros éticos, mudanças de atitude e comportamento orientarão um novo contrato social no que diz respeito aos recursos hídricos? Compreender a dimensão do problema é o primeiro passo para começar a resolvê-lo. A água ainda tem sido vista como uma fonte de conflitos e apresentada em termos de catástrofe, escassez e contaminação. Necessitamos implementar uma agenda política positiva, voltada para uma visão mais construtiva da água como recurso essencial e compartilhado.

A dificuldade de acesso à água potável e de saneamento básico deve ser encarada como uma violação dos direitos humanos e uma afronta à dignidade humana, e esse é também um marco que já orienta nossas ações. Um dos grandes méritos das celebrações deste Ano Internacional da Água Doce foi jogar luz sobre o falso mito da inesgotabilidade dos recursos hídricos, bem como trazer a base onde deve se estabelecer uma abordagem coerente da água com o desenvolvimento sustentável no mundo. Nunca se fizeram tantos seminários, estudos, publicações e manifestações sobre o tema como este ano. Este foi um passo importante. Cabe a nós, agora, fazer da boa teoria a prática, levando adiante as boas idéias apresentadas. Isso exige articulação entre Estado e sociedade civil, porque é problema de todos, sem exceção.

A UNESCO tem dado prioridade a essas discussões. Neste ano, elas resultaram no lançamento do Relatório Mundial sobre o Desenvolvimento dos Recursos Hídricos, que fomenta a busca de soluções em vários níveis, nos campos da educação e da cultura, no setor de informação e difusão de práticas sustentáveis no manejo das águas. E uma de nossas conclusões mais fundamentais é a de que as comemorações deste Ano Internacional da Água Doce não se esgotam em 2003. Mais do que isso, adentram todo o século XXI. Deste debate, pode surgir uma nova sociedade, mais sintonizada com a natureza e consciente de que a sustentabilidade do planeta depende do esforço conjunto em favor de um futuro viável comum. Esta é a nossa esperança.

 

* Jorge Werthein é Doutor em Educação pela Universidade de Stanford, EUA, e Representante da UNESCO no Brasil.

 



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