Conhecimento e Inovação Contra a Exclusão
Artigo publicado em dezembro de 2003 na revista Linha Direta Ano 6 Nº 69
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* Jorge Werthein O cientista e pensador Mário Bunge, que tinha uma visão integrada do desenvolvimento, observou, há mais de duas décadas, que a civilização moderna, no Ocidente e no Oriente, desmoronaria em pouco tempo se um grupo de fanáticos liquidasse os cientistas do mundo porque a civilização se tornou dependente da técnica e da ciência. Para ele, seria uma loucura planejar o desenvolvimento sem atribuir um papel de destaque à ciência e à técnica, pois estas constituem o núcleo da cultura moderna e o seu componente mais dinâmico. Quando Bunge escreveu isso - final dos anos 70 - muitos nem imaginavam que, na década seguinte, após o declínio do bloco soviético, em 1989, o mundo entraria em uma fase sem precedentes de uso do conhecimento e da inovação. Mudanças radicais começaram a se operar na economia e na sociedade, demandando níveis crescentes de escolarização de qualidade e de produção e aplicação de conhecimentos. Tal revolução não teria sido possível sem os avanços científicos e tecnológicos em áreas como a microeletrônica, a informação e a comunicação. Apoiado na tecnologia da informação, o capitalismo revitaliza-se, reestrutura-se e amplia os seus espaços em todo o planeta. Uma nova estrutura social, para usar a expressão de M. Castells, começa a surgir. As conseqüências dessa nova fase do capitalismo promovem mudanças em todos os setores da sociedade e da economia. O conhecimento e a inovação adquirem um valor estratégico jamais visto. As expressões sociedade e gestão do conhecimento tornaram-se presentes nos grandes fóruns mundiais sobre desenvolvimento. Os países que perceberam a tempo essa tendência empreenderam reformas em áreas estratégicas como a da educação e aumentaram seus investimentos em ciência e tecnologia e, por isso, entraram na divisão especial da competitividade; outros, como Brasil, Argentina, México, procuram recuperar o tempo perdido; e há os que podem estar condenados, a menos que uma nova lucidez tenha acento na cúpula dos incluídos. No caso do Brasil, apesar de ter perdido muitas chances no passado, algumas ainda sobrevivem e podem servir de alavancas para o futuro. Elas passam pela erradicação do analfabetismo, universalização da educação básica e presença de sólidas instituições de pesquisa básica e aplicada. Nessa direção, o lançamento do Programa Brasil Alfabetizado contribui para o fortalecimento da auto-estima do Brasil excluído. Por outro lado, a política científica e tecnológica, proposta pelo Governo, reconhece a importância do conhecimento e da inovação para combater a exclusão e ajudar a resgatar a dívida histórica com os que vieram e lutaram antes, mas cujos herdeiros permanecem excluídos. Uma política científica e tecnológica só se legitima em sua identificação com os segmentos mais pobres da população. As ilhas de excelência não bastam para combater a exclusão, sobretudo no cenário atual da globalização, que requer uma visão integrada entre educação, ciência e tecnologia. Uma educação básica de qualidade prepara o cenário futuro para que um maior número de brasileiros tenha acesso às tecnologias da informação e da comunicação e usufrua os frutos comuns do conhecimento. É preciso dar saltos para compensar em parte o tempo perdido. Mais do que isso. A velocidade das transformações exige urgência. Na educação, na ciência e na tecnologia estão as esperanças do Brasil. No conhecimento e no seu poder para modificar o regime de desigualdade de educação e ciência para todos fazem aumentar o cerco à exclusão, ajudam a reduzir a marginalidade e a violência e contribuem para um clima social favorável ao desenvolvimento. Daí a importância de uma política científica e tecnológica que ajude a reduzir a dependência do país e promova a desconcentração regional nos investimentos da área, que se volte para as questões sociais mais urgentes dos excluídos, entre elas o problema da fome, da habitação, do saneamento, da educação e da saúde. Essa política, que demanda amplas parcerias entre o poder público e a sociedade civil, precisa consolidar-se como política de Estado. Só assim, poderá criar um horizonte mais promissor. O Combate à exclusão por meio do conhecimento e da inovação, que constitui o principal fundamento das políticas do MCT, está na raiz e na trajetória da UNESCO. A Declaração Mundial de Budapeste sobre o uso do conhecimento científico ressalta a sua dimensão ética e a necessidade de colocá-lo ao alcance da coletividade. Só assim o conhecimento e os seus frutos poderão beneficiar todos. * Jorge Werthein é Doutor em Educação pela Universidade de Stanford, EUA, e Representante da UNESCO no Brasil. |

