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* Jorge Werthein
A antiga capital do estado de Goiás, silenciosamente preservada entre as encostas da Serra Dourada, era um tema que, até muito pouco tempo atrás, estava restrito apenas aos estudiosos da história e da arquitetura brasileiras e aos amantes da poesia de Cora Coralina. No ano passado, a campanha pela inscrição da cidade na Lista do Patrimônio da Humanidade da UNESCO fez com que o Brasil redescobrisse a Vila Boa de Goiás. O entusiasmo, a convicção e a determinação dos seus moradores na defesa da candidatura acabaram se transformando uma imagem que, aos olhos de todo o país, se tornou indissociável dos valores históricos e arquitetônicos que a cidade preservou.
A cidade de Goiás - aí compreendida sua comunidade e sua estrutura física setecentista - foi, na sua argumentação para a obtenção do título junto ao Centro do Patrimônio Mundial da UNESCO, portadora da bandeira de que não apenas expressões artísticas excepcionais ou monumentais são condição para o reconhecimento, mas que a preservação das técnicas tradicionais, da arquitetura vernacular e de uma reinterpretação bastante peculiar da ocupação portuguesa na Colônia são valores que sustentam a obtenção desse título.
Desta forma, o processo da candidatura de Goiás acabou se mostrando exemplar. Em um mundo cada vez mais comandado pelo individualismo e pelo espetáculo, o que, ao final, ficou demonstrado pelo reconhecimento da UNESCO foi a importância da preservação de valores sólidos - tanto do sítio, quanto do ambiente social - fundados na serenidade da tradição, na simplicidade e na agregação da comunidade.
Contraditoriamente, no último dia do ano, a mídia que tanto havia se ocupado de nos trazer boas notícias de Goiás em 2001, nos surpreendeu com informações e imagens dramáticas da chuva que atingiu a cidade na manhã de 31 de dezembro. O Rio Vermelho transbordou e levou consigo casas, pontes e, por pouco, o marco de Anhanguera. Felizmente as pessoas foram preservadas, embora muitas tenham perdido suas moradias, seus pertences ou seu local de trabalho.
O significado do título do Patrimônio Mundial, que até então só havia sido objeto de justas festividades, compareceu imediatamente na sua vertente das responsabilidades. O título, é importante que se enfatize, é antes de tudo, um acordo de responsabilidades feito entre cada pais signatário da convenção do Patrimônio Mundial de 1972 e a UNESCO, em favor da preservação de bens que interessam a toda a humanidade.
A resposta a esse compromisso se fez sentir imediatamente. De um lado o governo: o prefeito Boadyr Veloso e o governador Marconi Perillo, junto com suas equipes, integralmente comprometidos com a recuperação da cidade. Da área federal, se deslocaram imediatamente para Goiás, o IPHAN, que se encarregou de levantar os danos ao patrimônio, o Ministro da Cultura, o Ministro da Integração Nacional que coordena a Defesa Civil e o próprio Presidente da República que, da sacada do Palácio dos Arcos, se comprometeu com a recursos para a restauração e para a solução dos problemas sociais causados pela enchente.
Os prefeitos das outras oito cidades brasileiras inscritas na lista do Patrimônio Mundial se manifestaram à UNESCO através do prefeito de Congonhas, Gualter Monteiro, oferecendo solidariedade e se propondo a desenvolver ações específicas de apoio a Goiás.
O setor privado também manifestou apoio através de várias empresas e a comunidade, com a mesma determinação que havia se mobilizado para as comemorações, já compôs comissões de moradores e de pequenos empresários, abrigou muitos dos desabrigados e se organiza para e reconstrução.
A Representação da UNESCO no Brasil, por dever e por convicção, está totalmente engajada nesse processo. De um lado, ficou demonstrado que a Convenção cumpre o seu papel ao promover uma convergência tão grande de apoios e compromissos como esta que descrevemos aqui, o que dificilmente teria esta dimensão caso a cidade não tivesse recebido o título. De outro, estamos mobilizando nossos próprios recursos humanos e financeiros, assim como novas adesões para o trabalho de recuperação. Nosso compromisso será não só com a recuperação do que se perdeu, mas também com a identificação das causas e com medidas de prevenção para que novas situações com esta não venham a ocorrer.
E quem ainda não conhece Goiás, que não se aflija! Apesar desse triste acidente que atingiu principalmente as margens do Rio Vermelho, a cidade já pode ser visitada normalmente. Os valores que motivaram sua inscrição na lista do Patrimônio Mundial continuam preservados, os serviços públicos e de hospedagem estão funcionando e as pessoas continuam hospitaleiras e simpáticas, ainda que muitas delas ocupadas em ajudar umas as outras e ajudar na recuperação da cidade. O que a Representação da UNESCO espera é que a cidade receba cada vez mais novos visitantes que, certamente, se tornarão novos aliados na defesa da sua recuperação integral e da sua preservação sustentada.
* Jorge Werthein é representante da Unesco no Brasil |