Você está aqui: Página Inicial Mídia Opinião Artigos Publicados do Representante da UNESCO no Brasil Ano de 2002 Aids e futebol: exemplos de vitórias do Brasil

Aids e futebol: exemplos de vitórias do Brasil

Artigo publicado no Jornal do Brasil, em 15/07/2002

* Jorge Werthein


A 14ª. Conferência Mundial sobre a Aids, que aconteceu nos dias 7 a 12 de julho, em Barcelona, Espanha, foi mais um momento de atuação exemplar do Brasil. Ao levar sua experiência de promoção à saúde, prevenção e assistência aos portadores de HIV/Aids, mais uma vez o Brasil se destacou com feitos impressionantes diante do mundo. Assim como na conquista do título de pentacampeão do mundo no futebol, as vitórias da nação Brasil atingem toda a sociedade.

A consagração da seleção brasileira nos gramados da Coréia e do Japão não veio por acaso. É resultado de um trabalho, de um processo de construção. Antes da Copa do mundo, dezenas de jogadores foram testados, houve variações táticas experimentadas e muito, muito treinamento.O time foi crescendo ao longo do campeonato, contagiando até mesmo os mais descontentes. O momento de erguer a taça do mundo só foi possível graças a esse trabalho continuado.

No campo da saúde, o caminho das vitórias brasileiras também foi percorrido ao longo dos anos. E com muito trabalho e articulação. Assim o Brasil conseguiu definir uma política pública eficiente, conseguiu capacitar pessoas especialmente para o desenvolvimento e implementação do programa. A tática usada foi atacar simultaneamente em três frentes: fazer um trabalho preventivo junto à população; articular ações, fornecer apoio e financiamento a centenas de organizações da sociedade civil que trabalham na área, e ainda oferecer tratamento gratuito aos portadores de HIV. Desde 1996, quando foi garantido o acesso gratuito aos remédios antiretrovirais para toda a população brasileira, o que se constatou foi uma redução significativa das taxas de mortalidade e no impacto econômico e social da epidemia.

Em uma atualização de estudo feito há dois anos, o UNAIDS (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids) anunciou recentemente que o número de mortes por aids em 2000 no Brasil é um terço do número de 1996. Nesse mesmo relatório, divulgado esta semana que antecede a Conferência de Barcelona, há outra informação nada otimista: a aids deverá causar a morte de 65 milhões de pessoas até 2020, mais do que o triplo de mortes registradas nos primeiros 20 anos da epidemia. Isso se os países não acelerarem suas estratégias de ação em campo e fortalecerem seu ataque a uma epidemia que parecia ter encerrado seu pico, mas que continua avançando. É aí que entra a experiência bem-sucedida do Brasil.

Ao chegar a Barcelona para mostrar o que tem feito em resposta ao avanço da aids, o Brasil demonstrou mais uma vez o valor fundamental do trabalho na direção certa, da concentração na medida exata e dos esforços em favor de um grande objetivo, cujos resultados afetam toda a sociedade. E podem afetar todo o planeta se essa experiência for multiplicada pelos países mais atingidos pela epidemia, o que pode acontecer adaptando-as do modelo brasileiro ou por meio de parcerias como a que está sendo feita pela UNESCO, entre o Brasil e Moçambique (África), com troca de experiências que enfocam os jovens e a aids.

Foi comovente a alegria da população na recepção oferecida aos pentacampeões. A grandeza da festa refletiu a admiração do povo por quem soube demonstrar, com tanta competência, que o futebol é mesmo uma especialidade deste País. Na saúde pública, e mais especificamente na prevenção e assistência aos portadores de HIV/Aids, o brasileiro pode ter o mesmo orgulho que sente em relação ao futebol. O que o Brasil tem feito neste campo é comparável às memoráveis vitórias em Copas do mundo. Que elas continuem, para o bem da saúde do povo brasileiro e de todo o mundo, que tem hoje o Brasil como uma referência bem-sucedida.

* Jorge Werthein é argentino e Representante da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) no Brasil.

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