Você está aqui: Página Inicial Mídia Opinião Artigos Publicados do Representante da UNESCO no Brasil Ano de 2002 Água para o desenvolvimento

Água para o desenvolvimento

Artigo publicado em 01/07/2002, no site da UNESCO.

*Jorge Werthein

Falar em água hoje no Brasil tem um significado diferente. O Dia Mundial da Água, 22 de março, quando criado, por recomendação da Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento do Rio de Janeiro, a Rio 92, pretendia chamar a atenção da sociedade para a importância da água para a humanidade. Hoje avançou-se um pouco. Já sabemos disso. Agora o momento é de tomada de decisões, de escolha das melhores alternativas. É de efetivamente definir um caminho para preservar e manter as águas do planeta.

Já está formada uma consciência pública sobre a importância da conservação e desenvolvimento dos recursos hídricos, mesmo que ainda falte colocar em prática as recomendações da Agenda 21. Muitas delas relacionadas à água. No ano passado, a escassez desse bem precioso nos reservatórios brasileiros provocou o racionamento de energia elétrica, chamando a atenção de forma muito intensa sobre a problemática do acesso da população à água doce. Pessoas de todas as classes sociais tomaram "consciência" dos problemas trazidos pela falta d'água. E houve a oportunidade de cooperar com o País.

Todos estão cientes que as estatísticas sobre a questão não são exageradas, e que representam uma realidade a ser enfrentada com rapidez e firmeza para evitar falta de água em um futuro próximo. Falta acesso à água potável para um bilhão e cem mil pessoas, para 2,5 bilhões falta água para fins sanitários. E mais de 5 milhões de pessoas morrem por doenças relacionadas à água, 10 vezes mais que o número das que são mortas nas guerras no mundo a cada ano.

Com certeza o tema será de destaque na Rio+10, uma segunda edição da Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento que acontecerá em agosto próximo, em Johannesburgo, África do Sul. E não é à toa que a discussão deve ser acirrada, envolvendo chefes de Estado, Ongs e o setor privado de todo o mundo. Dois terços dos grandes rios são compartilhados por vários países e mais de 300 deles atravessam fronteiras nacionais. Há muito o que discutir.

No Brasil, a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) vem cumprindo seu mandato apoiando a instalação e estruturação da Agência Nacional de Águas - ANA em sua missão de "disciplinar a utilização dos rios, de forma a evitar a poluição e o desperdício, para garantir água de boa qualidade às gerações futuras". Inicialmente esse trabalho está focado em dois graves problemas do país: as secas prolongadas, especialmente no Nordeste, e a poluição dos rios.

No âmbito internacional, a UNESCO definiu "Água para o Desenvolvimento" como tema para o Dia Mundial da Água deste ano. Por meio do "Programa Hidrológico Internacional", procura-se dar uma base científica à avaliação global de recursos hídricos e à elaboração de princípios éticos e sócio-econômicos para guiar a gestão de águas e as práticas de desenvolvimento, especialmente em regiões áridas.

A Organização está trabalhando em conjunto também com a Secretaria do Programa WWAP - Programa Mundial de Avaliação dos Recursos Hídricos, das Nações Unidas. No Programa, o esforço orquestrado de 23 Agências das Nações Unidas produzirá o "Informe Mundial sobre o Desenvolvimento dos Recursos Hídricos.

O Projeto da UNESCO "Água para a Paz", em parceria com a Cruz Verde Internacional e encabeçado por Mikhail Gorbachev, visa disponibilizar aos tomadores de decisão, especialistas em hidrologia e estudantes as habilidades necessárias à negociação para prevenir a erupção de conflitos internacionais por causa da água. Pretende-se fazer do século 21 um marco da "água da paz" em vez de sofrer por "guerras de água".

Em todo esse esforço conjunto para se evitar o colapso pela fala de água, vale destacar uma recomendação. A questão da água deve ser tratada contemplando-se todos os interesses, de todos os lados. Trata-se de uma disputa na qual não pode haver vencedores nem vencidos. Todos precisam estar satisfeitos já que esse é um bem essencial à continuação da vida sobre o planeta.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

* Jorge Werthein é representante da UNESCO no Brasil e coordenador do programa UNESCO/Mercosul.

Ações do documento