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* Jorge Werthein
Várias pesquisas realizadas no Brasil destacam que a violência entre jovens - sejam eles vítimas ou autores - oscila durante a semana e aumenta aos fins de semana. Elas demonstram também a demanda dos jovens por lugares e condições para o exercício de atividades lúdicas, esportivas, artísticas, recreativas, enfim, espaços de sociabilidade e de manifestação de criatividade. Por fim, essas pesquisas alertam para o sentimento de exclusão dos jovens, o desencanto deles com os aparatos institucionais, a discriminação, a perda de referencial ético, a baixa auto-estima.
Nas pesquisas, a arte, o esporte, a educação e a cultura aparecem como um contraponto, como elementos estratégicos para a redefinição da violência. Representam a construção de canais de expressão alternativos, um espaço a ser explorado, uma forma de incentivo aos jovens para que eles se afastem das ruas sem ter de negar meios de expressão e de descarga de sentimentos como indignação, protesto e afirmação positiva de suas identidades.
A violência física cometida por e contra jovens é, muitas vezes, decorrente de um processo de exclusão social e resulta em um sentimento generalizado de vulnerabilidade, na percepção da própria insegurança das condições de vida, na perda da consciência quanto ao valor da vida. O risco concreto e o contato com a morte violenta criam um ambiente de incerteza e insegurança que impedem o aprendizado e a vivência de conceitos como liberdade, solidariedade, justiça e eqüidade, fundamentais para a construção da cidadania.
O programa "Abrindo Espaços: Educação e Cultura para a Paz" insere-se no marco mais amplo de atuação da UNESCO, voltado para a construção de uma cultura de paz, de educação para todos ao longo da vida, para a erradicação e o combate à pobreza e para a construção de uma nova escola para o século XXI, em que ela seja escola-função e não apenas escola-endereço.
A idéia central do programa é estimular a abertura das escolas nos fins de semana e disponibilizar espaços alternativos que possam atrair jovens. Essa estratégia resulta da observação de experiências bem-sucedidas em vários países, onde o trabalho com jovens, nas dimensões artísticas, culturais e esportivas, constituiu excelente forma de prevenção da violência.
Pesquisa do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) mostra que os programas de maior êxito são geralmente aqueles administrados em nível local e que envolvem parceiros de todos os setores da sociedade (empresas, instituições públicas, organizações comunitárias, polícias e sistema judicial). Estudos do Banco Mundial sobre o combate à pobreza evidenciam igualmente que qualquer projeto de desenvolvimento social e de combate à pobreza, que inclua a participação da comunidade, apresenta resultados sensivelmente melhores do que os projetos implementados baseados em estruturas hierárquicas verticais.
Não por acaso, portanto, o programa "Abrindo Espaços" tem três focos: o jovem, a escola e a comunidade. Prevê a abertura de espaços - sendo a escola o espaço privilegiado e prioritário, mas não o único - nos fins de semana para oferecer oportunidades de acesso à cultura, ao esporte e ao lazer para jovens em situação social mais vulnerável. Trabalhar com jovens significa também contemplar, de forma preventiva, as crianças. Afinal, elas poderão igualmente freqüentar algumas das atividades de fins de semana.
Manter o jovem em atividades lúdico-recreativas é mantê-lo afastado das situações de risco e perigo. Mas, além de preventivo, o programa tem uma perspectiva transformadora ao pretender modificar as relações dos jovens com a escola, dos jovens com os próprios jovens e dos jovens com as comunidades onde vivem.
Os resultados desse programa no Estado do Rio, em Pernambuco, na Bahia e em Mato Grosso, onde já foi implantado, mostram-se promissores. Apontam o potencial da escola, da comunidade e dos próprios jovens para transformar o ambiente em que vivem. Talvez não operem milagres, mas certamente contribuirão para a construção de uma sociedade mais integrada e, portanto, menos vulnerável à violência e à insegurança.
* JORGE WERTHEIN é representante da UNESCO no Brasil (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).
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