Brinquedos Perigosos
Artigo publicado no Correio Brasiliense em 02/05/2000; Zero Hora em 28/04/2000; Jornal A Tarde em 05 de maio de 2000 ; Gazeta do Espírito Santo em 12/05/2000; Jornal do Tocantins em 12/06/2000.
* Jorge Werthein
O uso da Internet para conferir mais transparência na administração pública foi o tema da palestra que Philippe Quéau, diretor do setor de Informação e Informática da UNESCO proferiu em Brasília. Doutor em holocausto, o inglês Shimon Samuels esteve no Brasil, onde fez palestras em Porto Alegre e Brasília sobre a disseminação de idéias preconceituosas e racistas veiculadas pela Internet.
A preocupação com o uso adequado e pacífico da rede mundial de computadores é também da UNESCO, que trouxe Samuels e Quéau ao Brasil. A organização está alerta não somente para o mau uso da Internet como de todos os meios comunicação de massa. O que fazer para evitar que a sociedade fique exposta a conteúdos indesejáveis veiculados por meio de uma tecnologia que alcança a todos de forma tão intensa e atraente? O que fazer para que ela seja sempre uma aliada da sociedade moderna?
A censura está fora de cogitação. Ela é incompatível com o estado democrático. Em qualquer lugar e tempo em que foi empregada, demonstrou ser uma aberração. Mas há alternativas.
A indústria de entretenimento de base eletrônica - nela incluídos produtores e divulgadores de desenhos animados, filmes, seriados e jogos eletrônicos - tem de se conscientizar de seu papel de produtora de conteúdo cultural e assumir responsabilidade correspondente. Produtores de bem cuidados seriados para televisão, no Brasil e no exterior, baseados em obras literárias ou scripts de qualidade, nunca se queixam da audiência que conseguem obter.
Oferecer um produto de qualidade deve ser preocupação também dos exibidores (aí incluídas as vídeo-locadoras), ao selecionar material para aquisição. A posição dos exibidores como agentes de mudança é estratégica: à medida em que eles se impuserem um padrão de qualidade orientador de sua programação (ou oferta), deflagrarão um processo similar entre os produtores, os quais procurarão atender uma demanda mais exigente.
Uma ação do governo é, como na maioria dos países do mundo, o exame do material a ser exibido (inclusive vídeo-games), a indicação das faixas etárias para as quais desaconselha a exibição. Nessa direção há uma ação do governo que pode ter maior alcance: a campanha lançada pelo Ministério da Justiça pela adesão das empresas do setor a um código de ética que elas mesmas elaborem em colaboração com o governo. Esse código seria fruto de um processo de "auto-regulação". Isso significa a busca de um compromisso dos empresários com a implantação de um "controle de qualidade" de sua programação.
Por outro lado, a opinião pública brasileira detém o condão para movimentar as empresas de comunicação na direção desse desejado controle de qualidade. Afinal, os brasileiros já se acostumaram a reclamar no PROCON da qualidade de produtos e serviços que adquirem. Precisam, agora, dar um passo a mais e começar a fazer valer seus direitos quando prestigiam uma ou outra empresa ao apertar os botões do controle remoto da TV ou entrar na fila de um cinema. A responsabilidade social dos detentores da mídia é grande, mas não isolada. É e deve ser coletiva. Governo, sociedade civil, empresários, todos têm de estabelecer uma parceria solidária. É imperativo que todos estejam cientes de que com mentes humanas não se brinca - e a mídia eletrônica às vezes pode ser um brinquedo perigoso, do qual todos igualmente podem ser vítimas.
* Jorge Werthein, sociólogo argentino, é Representante da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura (UNESCO) no Brasil e Coordenador do Programa UNESCO/MERCOSUL.

