Você está aqui: Página Inicial Mídia Opinião Artigos Publicados do Representante da UNESCO no Brasil Ano de 2000 Um novo perfil para a segurança internacional no século XXI

Um novo perfil para a segurança internacional no século XXI

Artigo publicado nos Jornais: Correio Brasiliense em 23/01/2000; O Popular em 29/01/2000; Jornal do Tocantins em 03/03/2000.

* Jorge Werthein

O primeiro mês do ano inicia-se sob a marca da mudança. Na segunda feira passada, o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas aproveitou sua primeira sessão do século XXI para debater os possíveis caminhos que a sociedade internacional deverá traçar nos próximos anos no combate a um dos mais perversos flagelos contemporâneos : a AIDS.

Pela primeira vez em seus 55 anos de existência, as Nações Unidas consideram que um tema referente à saúde das populações do mundo deve integrar a agenda de segurança internacional. Estima-se que nos próximos dez anos a Aids matará mais pessoas do que todas as guerras do século XX somadas. Hoje em dia, há aproximadamente 11 milhões de crianças e jovens órfãos da doença. O Conselho de Segurança abriu um precedente importante, sinalizando que essa devastadora epidemia deve ser combatida com a mesma firmeza com que a comunidade mundial enfrenta conflitos armados e o terrorismo internacional.

Durante os últimos anos, o número de infectados pelo vírus da Aids atingiu números alarmantes - 33,6 milhões em todo o mundo. As populações carentes, os jovens e as mulheres têm sido vítimas preferenciais não somente do vírus, mas também da ignorância e da discriminação.

Esse fato é preocupante para países como o Brasil, que precisam de uma população comprometida com o crescimento econômico e melhoria social para transformar o quadro histórico de desigualdades que marcam a sua história. Além de ser um problema de saúde pública, a Aids tornou-se um empecilho ao desenvolvimento dos países, impossibilitando a alavancagem do crescimento. Ao afetar as populações jovens do Brasil, a Aids diminui a qualidade de vida de toda a população, comprometendo o futuro da sociedade brasileira.

Dessa maneira, o Sistema das Nações Unidas no Brasil decidiu articular-se de forma a encontrar respostas para o desafio da Aids. Os esforços envidados nessa luta devem estar em harmonia com as caracterísiticas sociais e econômicas, as possibilidades e os limites do país. É no âmbito do Grupo Temático brasileiro do Programa Conjunto das Nações Unidas para a Aids (UNAIDS) que dezessete agências internacionais aqui representadas e entidades domésticas governamentais e da sociedade civil somam seus esforços para a consecução da tarefa de minar as causas das infeções no Brasil.

A estratégia adotada pelo Grupo Temático da UNAIDS consiste na progressiva inclusão dos diversos grupos sociais brasileiros na formulação e implementação de esforços na luta contra a Aids. A grande tarefa do Grupo para o ano 2000 é articular todos os vetores sociais de forma consistente e realista.

Nesse sentido, está sendo criado o Grupo de Trabalho Jovem, que agrega lideranças juvenis no assunto em nível nacional. Sua tarefa será a de aglutinar, disseminar e maximizar as informações referentes a práticas, técnicas preventivas e de tratamento, assim como o financiamento de projetos. Entende-se que o protagonismo juvenil em todas as fases de combate à doença - desde a prevenção nas escolas até o tratamento e o aconselhamento em centros hospitalares - é elemento central para o sucesso da empreitada.

Com o intuito de abarcar os setores sociais produtivos, criou-se o Conselho Empresarial de Combate à Aids por iniciativa do Ministro da Saúde. O Conselho reúne grandes grupos econômicos que trabalham em prol da conscientização de patrões e empregados, bem como da adoção de práticas preventivas desde a iniciação sexual até a maturidade. O Conselho tem a capacidade de estabelecer uma rede de práticas bem sucedidas que eventualmente poderão cruzar a fronteira e incluir outros grupos econômicos do Mercosul.

Some-se, ainda, a orientação do Grupo de Parlamentares Contra a Aids, ora em formação, que é a garantia da plena cidadania e a proteção dos direitos humanos daqueles que vivem com Aids. Composto por deputados e senadores, este Grupo terá a função de constituir uma pressão formal no sistema político brasileiro. Abrirá espaços institucionais para a obtenção de elementos que contribuam significativamente para a melhoria das condições de vida daqueles direta ou indiretamente afetados.

É importante que os educadores possam jogar um papel significativo na modificação do comportamento dos jovens brasileiros. Sua importância é enorme, seja incentivando o debate e combatendo os possíveis constrangimentos de tratar da Aids na sala de aula ou em casa em casa. Para isso, a UNESCO, com apoio do Grupo Temático, lançou o Prêmio UNESCO de Prevenção às DST/AIDS e ao Uso Indevido de Drogas, que premiará as escolas e grupos de estudantes que tenham os melhores programas de prevenção do país.

É evidente que a estratégia do Grupo Temático é complexa e ataca diversos contextos simultaneamente. A ação concertada com a Coordenação Nacional de Doenças Sexualmente Transmissíveis e Aids, que vem realizando um trabalho sem igual na América Latina, faz com que agências internacionais e nacionais atinjam a empatia necessária para levar à frente um projeto desta envergadura.

Temos um imenso trabalho pela frente e a certeza de que o nosso esforço pode ser multiplicado. A Aids não é tema exclusivo de governos, de agências ou de organizações civis, mas sim um problema que diz respeito a toda a sociedade. Os meios de comunicação são um instrumento primordial para a luta contra a desinformação e o preconceito. Com o apoio decisivo da mídia, os esforços de conscientização que vem sendo desenvolvido pelo Ministério da Saúde, as Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde, associados à contribuição dada pelo Ministério da Educação e das Secretarias de Educação com a inclusão dos temas de sexualidade nos Parâmetros Curriculares Nacionais e às campanhas do próprio Ministério da Saúde, podemos esperar resultados ainda mais expressivos nos próximos anos.

A Aids pode assumir as características devastadoras de uma guerra. É tarefa de todos somar esforços para combatê-la sem vergonha ou temor, mas com a consciência de que estamos tratando de uma questão de sobrevivência.

* Jorge Werthein, 57, sociólogo argentino, é Representante da UNESCO no Brasil e coordenador do programa UNESCO/Mercosul.

 

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