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Uma Nova Ética para o Desenvolvimento

Artigo publicado no Correio Braziliense em 08/08/2000; Jornal do Tocantins 27/08/2000

* Jorge Werthein

Os 500 anos do Brasil têm suscitado inúmeros estudos e debates em todo o País. O objetivo é repensar a experiência histórica brasileira, dar um balanço dos acertos, erros e omissões ao longo dessa trajetória, bem como gerar um conjunto de idéias, alternativas e caminhos para servir de suporte aos sonhos e aspirações futuras, necessárias e próprias de cada país.

A coincidência dos 500 Anos do Brasil com a proximidade de um novo milênio, onde em todo o mundo também se discutem idéias e tendências para o próximo século, fortalece ainda mais a necessidade de uma profunda reflexão sobre o significado e o alcance dos primeiros cincos séculos de existência do Brasil.

Para o estrangeiro e, em especial, para os latino-americanos, o Brasil sempre se mostrou como uma esperança capaz de dar uma contribuição sem precedentes para a aspiração comum de uma América Latina unida e solidária, em decorrência da identidade cultural gerada a partir de uma mesma matriz civilizatória, que foi a Península Ibérica. Essa aspiração, que também é um sonho, sempre esteve presente no povo e na mente dos melhores intérpretes da América Latina.

Por outro lado, em várias partes do mundo, hoje, ao ensejo da virada do milênio, ocorrem intensos debates sobre o que parece ser uma aflição que incomoda a todos, qual seja - o futuro da globalização e da mundialização das atividades humanas. Essa preocupação foi o ponto alto do encontro de líderes mundiais realizado em novembro de 1999, em Veneza, como também do encontro sobre a Governança Progressista, realizado recentemente em Berlim, na Alemanha Há um consenso que se generaliza de forma crescente sobre a necessidade de se encontrar caminhos alternativos. O que é inadmissível do ponto de vista ético, conforme ainda há pouco observou o Senador Lúcio Alcântara, é a de que estilos e fórmulas econômicas em vigência prossigam alijando expressivos segmentos sociais dos benefícios gerados pela globalização. Sob esse aspecto, tem razão o Presidente Fernando Henrique Cardoso que tanto no encontro de Florença quanto no de Berlim pediu combate ao fundamentalismo de mercado, reclamando por uma nova arquitetura financeira internacional capaz de dar maior racionalidade aos mercados de capital.

A rigor, o desenvolvimento humano não pode permanecer submetido às oscilações do capital volátil. A UNESCO há muito luta pelo advento de uma ética universal capaz de governar a globalização e possibilitar, por conseguinte, a compatibilização das necessidades sociais e humanas com a racionalidade instrumental de mercado. Todavia, adverte o Relatório Mundial da Cultura, coordenado por Pérez de Cuéllar: assegurar a todos os seres humanos, em todo o mundo, condições que lhes permitam levar uma vida decente e uma existência rica, exige um grande investimento de energia e amplas mudanças políticas. É esse, portanto, o desafio que se tornou urgente superar para que a própria Declaração Universal dos Direitos Humanos se converta, em um futuro próximo, em ponto de referência das decisões políticas e econômicas em escala mundial.

Desse modo, os encontros de Florença e Berlim, reunindo líderes mundiais e especialistas para debater uma nova via, representam iniciativas importantes em busca de uma nova ética do desenvolvimento. Da mesma forma, o Encontro Ano 2000, que será realizado em Brasília, em agosto, sob a égide do Instituto de Política da Universidade de Brasília, UNESCO e PNUD, o qual reunirá líderes políticos e especialistas de diversas tendências, do país e do exterior, configura-se como oportunidade ímpar para pensar e propor uma nova via que leve em conta, como bem observou o cientista político Augusto de Franco, a necessidade da sinergia entre Estado, Mercado e Sociedade Civil para que o país possa entrar num novo rumo de desenvolvimento.

* Jorge Werthein, sociólogo argentino, é Representante da UNESCO no Brasil.

 

 

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