Você está aqui: Página Inicial Mídia Opinião Artigos Publicados do Representante da UNESCO no Brasil Ano de 2000 Um Basta a Violência

Um Basta a Violência

Artigo publicado na Gazeta Mercantil em 06/07/2000; Jornal A Tarde (BA) em 07/07/2000; Correio da Bahia em 07/07/2000; A Gazeta de Cuiabá em 07/07/2000; A Gazeta (ES) em 17/07/2000; Jornal do Tocantins em 26/07/2000; O Popular (GO) em 26/07/2000

* Jorge Werthein

Mais do que nunca, os brasileiros querem paz. Não suportam mais a violência das ruas. Estão assustados e indignados com os altos índices de homicídio, sobretudo de jovens. Estudiosos e governantes debruçam-se sobre o problema e angustiam-se em busca de respostas e soluções.

A indignação e a preocupação generalizadas fazem sentido. Pesquisas recentes, da UNESCO e de outras instituições, demonstram que os índices de violência continuam altos no Brasil. Os mais afetados estão na faixa dos 15 aos 24 anos. O pico do índice de homicídios está nos jovens de 20 anos. É compreensível que a sociedade civil, os governantes e o empresariado percam o sono. Não é só o presente que está em jogo, mas também o futuro do país. Algo precisa ser feito o quanto antes e, ao que tudo indica, os primeiros passos em busca de soluções já começaram a ser dados.

O Ministério da Justiça lançou recentemente o Plano Nacional de Segurança Pública. O pacote de medidas prevê desde o combate ao narcotráfico e ao crime organizado até a implantação de um sistema nacional de segurança pública, passando pelo desarmamento e controle do uso de armas de fogo e o aperfeiçoamento legislativo. O Governo Federal movimenta-se. Quer tirar do papel propostas e idéias que revertam a situação atual.

A sociedade civil também se movimenta no mesmo sentido. Por meio de associações de diversos gêneros, ela vem se mobilizando tanto pela prevenção da violência quanto pelo socorro às vítimas dos diversos tipos de violência encontrados na nossa sociedade. São ações isoladas, mas que beneficiam milhares de pessoas e, com o tempo, farão enorme diferença.

Algumas empresas agem com o mesmo propósito e, mediante a criação de fundações ou institutos, criam mecanismos novos de prevenção e combate à violência. Ao dar incentivo à educação e às artes, o empresariado contribui significativamente para que jovens em situação de risco sejam incluídos nos benefícios da sociedade. Todos - governos, sociedade civil e empresários - estão cientes de que investir na prevenção é o caminho mais eficiente.

Visto desse ângulo, o problema parece menor. No entanto, é preciso reconhecer que ainda há muito a ser feito. Ações coligadas poderão surtir efeitos bem maiores. Governos, ONGs, empresas e cidadãos juntos terão ampliados o espectro de suas ações e os efeitos de todas elas. Um bom exemplo seria a abertura das quadras esportivas de escolas públicas e de empresas durante fins de semana e feriados. Iniciativa dessa natureza envolveria todos os setores da sociedade, pois implicaria ação governamental (via Secretarias de Educação, Esportes, Cultura, Ação Social e de Segurança Pública), ação civil (via organizações comunitárias ou de bairro) e empresarial (via patrocínios ou mesmo abertura ou criação de novos espaços). Pesquisas no mundo todo demonstram que jovens envolvidos em atividades artísticas e esportivas mantêm-se mais facilmente afastados das "tentações" das ruas.

Há iniciativas mais ou menos singelas que essa, mas viáveis em curto prazo e capazes de reunir crianças, jovens, adultos e idosos em torno de atividades mais edificantes e socializantes. São nos espaços abertos, onde são permitidas a descontração e a criatividade individual, que se aprende a mágica da convivência pacífica, da tolerância diante da diversidade, fundamentais para uma sociedade mais equilibrada.

A mobilização marcada para hoje (sexta-feira 7 de julho), intitulada "Basta. Eu Quero Paz." - fruto da união de 20 entidades do governo, do setor privado e da sociedade civil, com apoio da UNESCO - é uma manifestação simbólica do desejo de todos de ver na prática as tantas promessas e teorias sobre paz. Para muitos, sair de casa vestido de branco, apagar as luzes às 19h e acender uma vela à janela talvez sejam apenas a expressão pitoresca desse desejo. Para tantos outros, porém, será uma oportunidade a mais de manifestar, pacificamente, a própria indignação diante do presente quadro de violência. Afinal, mais do que uma questão de ética, trata-se de lutar pela própria sobrevivência.

 

* Jorge Werthein, sociólogo argentino, é Representante da UNESCO no Brasil.

 

 

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