Você está aqui: Página Inicial Mídia Opinião Artigos Publicados do Representante da UNESCO no Brasil Ano de 2000 Morin e a Educação do Futuro

Morin e a Educação do Futuro

Artigo publicado no Jornal do Brasil em 23/06/2000; Jornal A Gazeta em 04/07/2000; Diário de Cuiabá em 06/07/2000

* Jorge Werthein

Em 1999, a convite da Unesco, Edgar Morin aceitou o desafio de expor suas idéias sobre a educação do futuro. O resultado foi a produção de um avançado texto sobre os saberes necessários à educação do próximo milênio. O texto está sendo lançado no Brasil nesta semana com a presença desse iminente pensador da complexidade.

Um pouco antes, em 1996, a Unesco já havia empreendido um grande esforço de repensar o papel da educação no contexto da mundialização das atividades humanas, por intermédio da Comissão Mundial para a Educação do Século 21, presidida por Jacques Delors, que elaborou um amplo relatório propondo quatro pilares para servirem de base à educação do próximo milênio - aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos e aprender a ser.

Por sua vez, Edgar Morin devido à sua excepcional visão integradora da totalidade, pensou os saberes na perspectiva da complexidade contemporânea, explorando novos ângulos, muitos dos quais ignorados pela pedagogia atual , para servirem de eixos norteadores à educação do próximo milênio

Os saberes propostos por Morin que, como ele mesmo afirma, antecede qualquer guia ou compêndio do ensino, inserem-se na idéia de uma identidade terrena onde o destino de cada pessoa joga-se e decide-se em escala internacional, cabendo à educação a missão ética de buscar e trabalhar uma solidariedade renovadora que seja capaz de dar novo alento à luta por um desenvolvimento humano sustentável.

Morin considera que há sete saberes fundamentais com os quais toda cultura e toda sociedade deveriam trabalhar, segundo suas especificidades. Esses saberes são respectivamente as Cegueiras Paradigmáticas, o Conhecimento Pertinente, o Ensino da Condição Humana, o Ensino das Incertezas, a Identidade Terrena, o Ensino da Compreensão Humana e a Ética do Gênero Humano.

Esses saberes são indispensáveis frente à racionalidade dos paradigmas dominantes que deixam de lado questões importantes para uma visão abrangente da realidade. Para Morin, é impressionante como a educação, que visa transmitir conhecimentos, seja cega em relação ao conhecimento humano. Ao invés de promover o conhecimento para a compreensão da totalidade, fragmenta-o, impedindo que o todo e as partes se comuniquem numa visão de conjunto.

Por outro lado, como diz Morin, o destino planetário do gênero humano é ignorado pela educação. A educação precisa ao mesmo tempo trabalhar a unidade da espécie humana de forma integrada com a idéia de diversidade. O princípio da unidade/diversidade deve estar presente em todas as esferas.

Para tanto, torna-se necessário educar para os obstáculos à compreensão humana, combatendo o egocentrismo, o etnocentrismo e o sociocentrismo, que procuram colocar em posição secundária aspectos importantes para a vida das pessoas e das sociedades.

Em suma, os Sete Saberes assinalam uma nova etapa do pensamento educacional. A edição brasileira está sendo lançada com a presença de Edgar Morin no Seminário "Escola Jovem: Um novo Olhar para o Ensino Médio", organizado pelo Ministério da Educação por intermédio de sua Secretaria de Ensino Médio e Tecnológico. Essa coincidência entre a concepção de uma escola para a juventude brasileira e os Sete Saberes pode significar o surgimento de uma vontade de olhar a educação da juventude por lentes prospectivas, que permitam ver com lucidez os contornos da educação para o próximo milênio.

  
Jorge Werthein, 58, sociólogo argentino, é Representante da UNESCO no Brasil.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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