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* Jorge Werthein
As avaliações que têm sido feitas sobre a educação básica brasileira indicam de modo geral que a década de 1990 se destaca como sendo um período onde alguns dos velhos e crônicos problemas da educação nacional começaram a ser enfrentados com maior lucidez, tanto do ponto de vista político, quanto sob a dimensão pedagógica.
Por um lado, no que diz respeito à dimensão política, a política de educação básica, inspirada nos ideais de educação para todos lançados no inicio da década pela UNESCO, passou a merecer das instâncias da administração educacional - federal, estadual e municipal -, como também da sociedade civil, uma atenção significativamente maior. Por outro, o que se refere à dimensão pedagógica, um crônico problema que há muito vinha dizimando inteligências - o da repetência - passou a ser visto e enfrentado por uma ótica mais real, qual seja, a da possibilidade concreta de substituir a cultura do fracasso pela cultura do sucesso escolar.
A política educacional dos anos noventa, ao invés de ficar lamentando o fato de milhões de crianças estarem repetindo seguidas vezes, deu início a uma série de experiências inovadoras que começaram a reverter o drama secular do insucesso escolar.
Também em relação ensino médio, onde o Brasil ostentava uma taxa de matrícula das mais baixas no contexto dos países da América Latina e do Caribe, o País acordou e deu início a progressiva universalização da educação da juventude, acrescentando alguns milhões de novas oportunidades aos jovens.
Permeando esse cenário inovador, o surgimento do CONSED e da UNDIME, entidades que congregam os Secretários estaduais e municipais de educação, configurou-se como ponto importante para o debate e o avanço da política educacional. Nessa mesma direção, menção deve ser feita ao crescente espaço que a educação passou a ocupar nos principais jornais e emissoras de rádio e televisão do país. O mesmo deve ser dito em relação ao surgimento de lideranças empresariais lúcidas que passaram a perceber a relevância da educação básica.
Este impulso inovador, construído ao longo da década continua a renovar-se e se permite fertilizar com o aporte de novas idéias e de novas alternativas operacionais. Ainda recentemente, visitando no Estado de Goiás, as cidades de Goiânia e Goiás, pude ver de perto alguns exemplos da construção e reconstrução educacional que se opera no País, chamando-me a atenção de modo especial a Feira do Cantinho da Leitura, um original espaço público para desenvolver a criatividade, os sonhos e a reflexão infanto-juvenil; o programa Acelera Goiás em parceria com o Instituto Ayrton Senna que procura não apenas corrigir a distorção série-idade, mas, sobretudo, resgatar a auto-estima das crianças e adolescentes; o Salário-Escola, versão goiana da política de renda mínima associada à educação que atende aproximadamente 35 mil crianças carentes; Escola para o Século XXI, experiência desenvolvida pelo Município de Goiânia, cuja preocupação maior é a de desenvolver os ideais de tolerância, paz e solidariedade; o Programa Bolsa Universitária que viabiliza o acesso aos estudos superiores de estudantes sem condições econômicas; e o Projeto Viva e Reviva Goiás, que procura envolver e mobilizar a comunidade estudantil de Goiás na releitura da história e na reconstrução da vivência dos que lutaram antes.
Por tudo isso, Goiás está de Parabéns. E ainda mais: a política educacional desse Estado começa a perceber a indissociabilidade entre educação e cultura.
Jorge Werthein é representante da Unesco no Brasil |