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* Jorge Werthein
O termo alfabetização está sendo substituído gradativamente pela noção de alfabetismo, não só para melhor traduzir o conceito em inglês de literacy, como para dar idéia mais ampla da ação de alfabetizar, que implica avanços na compreensão e no domínio de códigos, seu manejo na sociedade e na prática social de ler e escrever.
A introdução de novas tecnologias está desmistificando a escrita como código único e conduzindo à noção de "alfabetismos" ou "analfabetismos" - no plural - para designar a referência a múltiplos códigos e à multiplicidade de significações que pode adquirir o "alfabetismo" em diferentes culturas e com variados níveis de exigência. Na verdade, somos todos analfabetos de um modo ou de outro, perante diferentes tipos de informação e comunicação.
A Conferência Mundial de Educação para Todos, de 1990, teve influência marcante na definição de "alfabetismo", ao ampliar sua abrangência de forma a incluir as necessidades básicas de aprendizagem, tanto no domínio da escrita, leitura e aritmética, quanto em relação às habilidades para resolver problemas. Esse conceito tem a vantagem de contemplar as competências adquiridas em sistemas não-formais e nas experiências pessoais em contextos cotidianos de aprendizagem.
Esse novo enfoque fortalece a visão ética de jovens e adultos, valoriza as aprendizagens ativas, revaloriza o aporte cultural de cada pessoa e comunidade e incentiva a solidariedade e a cooperação na luta pela erradicação do analfabetismo.
Além disso, deve ser revisto o enfoque da educação de jovens e adultos como educação compensatória a favor de uma visão mais ampla e permanente que responda às demandas do desenvolvimento local, regional e nacional. Os conteúdos curriculares precisam ser pensados no contexto da identidade e das aspirações da comunidade. É preciso adotar estratégias pedagógicas e metodologias orientadas para a otimização da comunicação, que pressupõem a formação e a capacitação específica de professores.
O analfabetismo no Brasil está em declínio. Apesar das dificuldades, muitas iniciativas estão em curso no âmbito dos Estados, dos municípios e da sociedade civil. Nesse contexto, destaca-se o programa Alfabetização Solidária, que já atinge um universo de 1,5 milhão de pessoas, com projeção de chegar a 2 milhões em 2001. Além disso, desenvolve-se, nos âmbitos estadual e municipal, uma nova vontade de enfrentamento do impasse com maior rigor e seriedade.
Por outro lado, é crescente a consciência sobre a necessidade de uma política continuada de educação de jovens e adultos para não se repetirem os erros do passado. Não se pode perder de vista que, em termos de política educacional para o século 21, o desafio é tanto de quantidade quanto de qualidade. A educação para todos ao longo da vida tornou-se uma necessidade de todos os países.
Para finalizar, além da preocupação com a qualidade, a política de jovens e adultos precisa fazer um esforço para melhorar sua institucionalidade, sobretudo nas secretarias estaduais e municipais de educação. É importante ter, nessas instâncias, equipes bem preparadas tanto sob o aspecto técnico quanto no que diz respeito à dimensão política de parcerias e alianças.
Para tanto, nunca será demais insistir em uma política de parcerias e alianças entre o poder público e a sociedade civil. O desafio agora é de todos. Cabe ao Estado dar o exemplo e legitimar uma política solidária.
O século 21 herdará dos precedentes uma enorme dívida social cujo enfrentamento demanda, por um lado, vontade e decisão política e, por outro, a participação de todos. Foi-se o tempo de quanto pior, melhor; usado por alguns partidos políticos insensíveis ao todo. O interesse coletivo deverá constituir o marco norteador, o que não implica necessariamente deixar de ser oposição.
* Jorge Werthein, sociólogo argentino, doutor em Educação pela Universidade de Stanford, é Representante da UNESCO no Brasil. |