Necessidade de uma nova Ética
Artigo publicado no jornais O Globo - RJ em 24/02/1999 e na Revista El Arca em Julho/1999
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* Jorge Werthein Um dos principais impasses da sociedade contemporânea é o galopante processo de globalização das relações econômicas sem regras e sem freios, que conduz a um perigoso dualismo entre os que globalizam e os que são globalizados. Em 1998, o mundo todo comemorou por um lado, e repensou por outro, os cinqüenta anos de vigência da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O repensar da Declaração coincidiu com um momento em que de diversos pontos do planeta levantavam-se vozes críticas abalizadas para alertar para a urgente necessidade de uma nova ética universal capaz de presidir e orientar ou pelo menos atenuar os efeitos desagregadores decorrentes de uma mundialização desgovernada. As interrogações e incertezas deste final de século, que não são poucas, devem ser amplamente enfrentadas e debatidas por todos. Não se pode mais admitir que o destino de milhões de pessoas seja decidido nos círculos restritos dos que dominam o mundo, que são, via de regra, insensíveis a uma visão ampla e abrangente dos problemas sociais e humanos. Ainda recentemente, J. K. Galbraith, em oportuno artigo, chamou atenção para o fato de que a preocupação pelo bem-estar humano não termina nas fronteiras nacionais. Deve estender-se aos pobres de todo o planeta; fome, doença e morte são causas de sofrimento humano onde quer que sejam experimentados. Todas as pessoas civilizadas devem concordar com isso. A UNESCO, em sua trajetória de lutas pelos direitos humanos, tem procurado com insistência, no âmbito dos mandatos que lhe foram atribuídos pelas Nações Unidas, defender nos fóruns internacionais a "construção de sociedades sem exclusões". Sob esse aspecto, o Consenso de Brasília, obtido ao termo da Cúpula Regional para o Desenvolvimento Político, realizada em 1997, foi bastante incisivo ao reconhecer que, se os mercados competitivos são indispensáveis para desatar as energias do crescimento econômico, o mesmo não se pode dizer em relação à igualdade social e à estabilidade política. Uma globalização que marginaliza as populações inteiras não pode ter no mercado o seu ponto de referência. Este haverá de ser buscado numa nova ética, que dê primazia às pessoas enquanto sujeitos insubstituíveis do verdadeiro processo de construção democrática. Para tanto, torna-se cada vez mais indispensável discutir mecanismos para governar a globalização, par usar a expressão de Federico Mayor, Diretor Geral da UNESCO. Sob esse aspecto, o Encontro do Final do Século, que está sendo programado pelo Fórum Brasil Século XXI, a ser realizado em Brasília, em dezembro, reunindo personalidades de reconhecimento internacional nos diferentes campos de atividades humanas, constituirá excelente oportunidade para uma reflexão profunda sobre os efeitos da globalização no Brasil e nos demais países da América Latina. A revolução tecnológica atualmente em curso aumenta o desemprego. De uma hora para outra, o desempregado pode ver-se alijado dos frutos de um progresso que ele ajudou a construir. Diante dessa escala global, a urgência de um novo cenário, fundamentada em uma ética e em um paradigma que permitam a redução de assimetrias e das disparidades na distribuição da riqueza, converteu-se em um imperativo para evitar o caos. Os países da América Latina e, em especial, os do Mercosul, empreendem hoje uma luta sem precedentes no sentido de assegurar maior justiça social às suas populações. Enfrentam, no entanto, diferentes tipos de obstáculos em decorrência do desgoverno do processo de globalização. Evitar o caos tornou-se, assim, uma questão que transcende fronteiras. Há a urgente necessidade de um novo padrão ético, sem o que não será possível acreditar, como disse A. Toynbee, na possibilidade de todos os benefícios da civilização estarem ao alcance de todos. "Quanto tempo ainda poderemos nos dar ao luxo de não agir?", pergunta Federico Mayor em um de seus artigos. " Por acaso calculamos o preço da inércia, da inatividade, da ausência de uma ética do futuro?", continua. Certamente esse preço ainda não foi calculado. E, se o for, com certeza, constatar-se-á que ele será bem menor que o custo de uma ética que viabiliza um novo contrato social. Será a partir de um novo quadro ético orientador das relações internacionais que se tornará possível a reconstrução da dignidade. Só assim será lícito imaginar cenários de progressiva inclusão que acenem para a substituição do vazio de perspectiva para uma possibilidade concreta de solidariedade e justiça compartilhadas. * Jorge Werthein, sociólogo argentino, é Representante da UNESCO no Brasil e coordenador do Programa UNESCO/MERCOSUL. |

