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* Jorge Werthein
A sociedade está perplexa. Jovens, aparentemente inofensivos, de repente apresentam-se como ameaçadores. Futuros estudantes universitários, de forma arriscada e irresponsável, celebram a aprovação no vestibular expondo a própria vida e a dos colegas. Adolescentes de classe média queimam vivos mendigos nas ruas. Alguns bebem em excesso. Outros tantos usam drogas pesadas. Há os que se armam como se vivessem em um país em guerra - o arsenal, variado, compreende desde pistolas até cães ferozes. Os mais cruéis são capazes de metralhar, a sangue frio, colegas na escola. A sociedade pergunta: por quê?
A resposta não é fácil. Culpar o jovem, estigmatizá-lo como algoz incorrigível seria tanto uma precipitação quanto um equívoco. Afinal, o jovem não só pratica a violência como também é vítima dela. Pesquisa recente da Unesco, intitulada "Mapa da Violência - Os Jovens do Brasil", traz dados preocupantes a esse respeito: mais de 24 mil jovens, entre 15 e 24 anos, morreram no Brasil somente no ano de 1996. As causas: acidentes de transporte, homicídios ou suicídios. Assassinados foram mais de 15 mil. Por quê?
Observa-se, no "Mapa da Violência", que fatores de diversas ordens influenciam o destino de milhares de jovens, mas que alguns desses fatores parecem ter papel mais marcante: a pobreza; as crescentes dificuldades de inserção no mundo do trabalho; os problemas da escolarização e do preparo profissional; a falta de perspectivas; a cartelização expansiva da delinqüência e da droga; os diversos conflitos e violências (raciais, étnicas, econômicas etc.) no mundo; a impunidade e a perda de confiança na efetividade do sistema jurídico; os vazios e conflitos da democracia e dos partidos políticos, os quais levam a um profundo desinteresse. O que fazer?
Há mais de 50 anos que a Unesco empreende uma luta sem tréguas para garantir que seus países membros executem uma política de educação para todos ao longo de toda a vida. A educação parece ser a chave para a solução de alguns dos problemas mais graves da atualidade, entre eles a violência. Somente pela educação, em sentido amplo, pelo combate incansável à ignorância, é que poderá haver condições de implantar nas mentes de todos a idéia de paz e de respeito aos direitos humanos e à natureza.
Nesse aspecto, a Unesco persegue um objetivo de longo prazo. Empreende uma luta árdua, com matizes de utopia. No entanto, essa luta começa a afigurar-se cada vez mais como imprescindível. Deixou de ser uma questão secundária para entrar na ordem do dia. A educação para a paz e para os direitos humanos é uma educação voltada para a cidadania, para a valorização das diferenças, para a importância da convivência pacífica entre povos, nações e pessoas.
No cenário atual, de intolerância e agressividade, a educação apresenta-se como uma alternativa, não para operar milagres, mas para formar cidadãos em condições de enfrentar a crise em um mundo de incertezas e perplexidades. É pela compreensão dos problemas que se pode começar a equacioná-los. Da mesma forma, é pela formação voltada para a valorização dos direitos humanos que se criarão novas perspectivas de vida e de convivência.
Parece evidente que a educação, sem amparo de leis e medidas de segurança pública, não poderá sozinha, sobretudo em curto prazo, dar cabo dos atos de incompreensão, intolerância e vandalismo com que nos fartamos nos noticiários. Porém, mesmo nas ações destinadas a prevenir e corrigir os comportamentos que desrespeitam os direitos humanos e a natureza, é preciso ter em mente essa perspectiva mais ampla da educação. Caso contrário, manteremos reformatórios que mais alimentam a violência do que reeducam potenciais cidadãos.
O relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre Educação para o Século 21, organizado por Jacques Delors e intitulado "Educação - Um Tesouro a Descobrir", destaca: "A educação não pode, por si só, resolver os problemas postos pela ruptura (onde for o caso) dos laços sociais. Espera-se, no entanto, que contribua para o desenvolvimento do querer viver juntos, elemento básico da coesão social e da identidade nacional."
É baseada, portanto, na crença de que a educação é o melhor caminho rumo a uma sociedade mais justa e pacífica, que a Unesco vem empreendendo esforços para compreender o que se passa e poder apontar saídas para a presente situação. Somente no Brasil, nos últimos dois anos, a Unesco realizou, mediante importantes parcerias, duas pesquisas exclusivamente dedicadas à questão da juventude e da violência, e terá prontos, ainda neste ano, mais quatro estudos sobre o mesmo assunto. Um deles abordará especialmente a questão da violência nas escolas brasileiras.
Munida de dados, a Unesco pretende colaborar com o Governo e com a sociedade brasileira para a elaboração de uma política específica para a juventude, a qual possa contemplar o combate não somente da violência atual e visível, mas também da violência latente, dos potenciais destrutivos que necessitam, com urgência, de redirecionamento. O jovem não pode, tampouco merece, ser causador ou vítima da violência. Algo precisa ser feito. Já.
* Jorge Werthein, sociólogo argentino, 57 anos, é Representante da Unesco no Brasil e coordenador do programa Unesco/Mercosul. |