Você está aqui: Página Inicial Mídia Opinião Artigos Publicados do Representante da UNESCO no Brasil Ano de 1999 Educação, Emprego e Cidadania

Educação, Emprego e Cidadania

Artigo publicado nos Jornais: Folha de São Paulo em 03/02/1999; O Povo - CE em 28/03/1999.

* Jorge Werthein

A globalização traçou uma nova carta do mundo, fazendo surgir novos pólos de dinamismo, baseados no comércio mundial, diz o Relatório Mundial da Educação da UNESCO, coordenado por Jacques Delors. A competitividade desenfreada tornou-se uma regra, obrigando todos os países a arranjar trunfos específicos para participar do desenvolvimento das relações econômicas mundiais, tornando ainda mais transparentes a separação entre os que ganham e os que perdem. Em outras palavras, para usar a expressão de Federico Mayor, Diretor Geral da UNESCO, entre os que globalizam e os que são globalizados.

O elevado grau de competitividade ampliou a demanda por conhecimentos e informações. As mudanças que já se efetivaram ou as que estão em curso atingem a estrutura social, em sua totalidade, gerando incertezas crescentes quanto ao futuro. No setor trabalho, o consagrado modelo fordista-taylorista está cedendo lugar a novos desenhos conceituais e operacionais. As tendências atuais valorizam e dão destaque à inteligência distribuída e à elevação contínua da qualidade; enfatizam igualmente o desenvolvimento de capacidades que permitam a indispensável adaptação a mercados em constante mutação e oscilação.

Em decorrência, a educação passou a ocupar posição estratégica no processo de competitividade. Vários países têm procurado reformar seus sistemas de educação com o intuito de prepará-los para fazer face às novas demandas. No caso da educação profissional, as agências executoras começam a ampliar programas e a elevar os níveis de exigência em matéria de escolarização para admitir candidatos a diversos tipos de cursos básicos de formação profissional. No entanto, essa solução pode deixar de lado contingentes de trabalhadores
desempregados ou vulneráveis ao desemprego. Muitas empresas, por exemplo, já estão substituindo trabalhadores de baixa escolarização por pessoas mais qualificadas mantendo o mesmo salário. A crise do desemprego devido ao uso intensivo de tecnologias poupadoras de mão-de-obra, em ritmo ascendente e sem previsões, favorece a exclusão dos que ainda não lograram atingir níveis mais elevados de escolarização.

Os novos desenhos conceituais têm procurado dar respostas aos novos desafios, incluindo na formação profissional metodologias e conteúdos cognitivos e sociais de acordo com os paradigmas emergentes. Todavia, não se pode perder de vista o fato de que, se fosse possível assegurar a todos as mesmas competências, o problema da exclusão continuaria, devido ao crescente desemprego. De acordo com a lúcida conclusão do Relatório Mundial da Cultura, organizado por Pérez de Cuellar, devido ao uso de tecnologias de capital e conhecimento intensivo, o emprego para a vida toda praticamente não existe mais. Esse mesmo relatório alerta para o fato de que não basta apenas educar. É preciso empregar convenientemente os conhecimentos adquiridos. Trata-se de um dos maiores desafios a serem enfrentados pelas políticas públicas da atualidade.

Não há solução em vista para o problema do desemprego, como também não há consenso entre os estudiosos sobre como solucionar o impasse da exclusão. No plano da política educacional, o que a UNESCO tem procurado incentivar e dar destaque, em inúmeros documentos que tratam do assunto, é a importância de estabelecer eixos norteadores que garantam simultaneamente a aquisição de conhecimentos básicos ao mundo de hoje e o desenvolvimento da cidadania. O binômio conhecimentos básicos - cidadania sobressai pelo fato de que os desafios e impasses que estão à vista demandam soluções que não sejam impostas, mas negociadas publicamente.

Não é mais suficiente alfabetizar e oferecer um treinamento profissional rápido. Os socialmente engajados, para usar a expressão de J.K. Galbraith, precisam estar atentos às mudanças que se operam no plano da progressiva internalização dos direitos de cidadania, que se farão presentes, seguramente, nas agendas internacionais e nacionais do Século 21. O fortalecimento das pessoas pela educação cidadã de qualidade será sempre um caminho seguro para enfrentar a crise do desemprego. Pessoas educadas, mais do que treinadas, estarão em melhores condições de repensar alternativas.

 

* Jorge Werthein é Representante no Brasil da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) e coordenador do programa UNESCO/Mercosul.

 

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