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As Mulheres e o Novo Milênio

Artigo publicado no Jornal de Brasília, em 08 de março de 1999.

* Jorge Werthein

Este 8 de março, data comemorativa do Dia Internacional da Mulher, registra o encerramento de um milênio que, particularmente para as mulheres, meninas, jovens, adultas e anciãs oportunizou uma série de conquistas sociais, políticas, econômica e até mesmo pessoais.

Em especial no último século, encaram-se as contradições das relações de gênero e com elas expô-se a fragilidade das condições de vida da maioria das mulheres, denunciando e discutindo a quase impossibilidade do próprio exercício da cidadania.

De uma forma geral, até os mais cépticos reconhecem que essa realidade, mesmo não tendo conseguido ser totalmente revertida, apresentou avanços inegáveis. No Brasil, em boa parte de outros países, pesquisas apontam o processo de empoderamento das mulheres, pressupondo o reconhecimento e a superação gradativa dos problemas que resultam da discriminação por gênero.

Basta um olhar histórico retrospectivo para captar a capacidade das mulheres de organização, superação e inserção em um mundo quase exclusivamente masculino. Em conseqüência, temos podido desfrutar das riquesas das diferenças de posturas e e olhares sobre a realidade. Há um rico e significativo complemento, que sempre ocorre nos processos inclusivos, não discriminatórios, entre homens, mulheres e, principalmente, entre ambos.
Contribuindo com as reflexões sobre a problemática, a UNESCO, assim como ocorreu em 97 e 98, está lançando neste mês os resultados de uma pesquisa no livro "Engendrando um Novo Feminismo Mulheres Líderes de Base", que amplia o debate sobre a pluralidade sobre as formas de organização da sociedade brasileira. O estudo revelou a percepção de um novo feminismo no cotidiano das mulheres do grupo de base, que não se restringem mais à preocupação com o reconhecimento formal dos direitos. Em suas políticas concretas, articulam individualização e responsabilidade coletiva, economia e cultura revelando entendimentos não reducionistas.

No entanto, não poderíamos comemorar o último 8 de março do milênio sem registrar que as conquistas apontadas convivem, contraditoriamente, com aviltamentos contra as mulheres. Em alguns países do mundo, é possível vislumbrar diferentes formas de ataques contra as mulheres, sejam políticos, sociais e até pessoais. Questões culturais apresentam-se como justificadoras de uma série de agressões, tornando em alguma medida, não apenas feministas, mas defensores dos direitos humanos internacionais impotentes na contenção de tais agressões.
Seriam os direitos humanos e, em particular das mulheres, tão dependentes de atrocidades interpretadas por alguns como "questões culturais"? Quais os reais limites de uma cultura? Essas e tantas outras indagações devem ser por nós analisadas neste 8 de março, esperando que o novo milênio possa representar um espaço de conquista, não de mulheres ou homens, mas da humanidade que estará, enfim, celebrando a vida e a dignidade humana.

Em 1998, o mundo todo comemorou por um lado e repensou por outro os cinqüenta anos de vigência da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O repensar da Declaração coincidiu com um momento em que, de diversos pontos do planeta, levaram-se vozes críticas abalizadas para alertar para a urgente necessidade de uma nova ética universal.

As interrogações e incertezas políticas, econômicas e culturais desde o final do século e milênio, que não são poucas e não se restringem às questões de gênero, devem ser amplamente enfrentadas e debatidas por todos. A preocupação com uma vida digna não termina nas fronteiras nacionais. A UNESCO em sua trajetória de luta pelos direitos humanos tem procurado, com insistência, no âmbito dos mandatos, que lhe foram atribuídos pelas Nações Unidas, defender nos fóruns nacionais e internacionais a "construção de sociedade sem exclusões".

Assim, às vésperas do novo milênio, congratulamo-nos com todas as mulheres pelas conquistas individuais e coletivas e nos solidarizamos com todas aquelas que, pelos mais diferentes motivos, ainda são excluídas, discriminadas e sofrem pelo fato de serem mulheres.

* Jorge Werthein é representante da Unesco no Brasil

 

 

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