Você está aqui: Página Inicial Mídia Opinião Artigos Publicados do Representante da UNESCO no Brasil Ano de 1998 Pensando nos Dirigentes do Amanhã

Pensando nos Dirigentes do Amanhã

Artigo publicado no Correio Braziliense em 27/08/1998.

* Jorge Werthein

Acontece em Brasília, nesta semana, um congresso internacional sobre superdotação. A importância que a UNESCO credita à temática dos superdotados reveste-se de duplo significado. Em primeiro lugar, entendemos como prioritário abordar o tema em um mundo onde cada vez mais se faz necessário reforçar a importância de trabalhar com e as diversidades. O que significa dizer que a valorização dessas diversidades justifica-se pela constatação de que somos pessoas diferentes e não podemos eleger medidas e padrões como naturais e comuns a todos.

Em segundo, reconhecemos a relevância em divulgar uma preocupação não apenas brasileira, mas que representa tantas outras nações, que vislumbram nos talentos humanos mais uma fonte para melhor equacionar as dificuldades deste final de milênio. O século XXI pressupõe uma caminhada rumo ao desenvolvimento sustentável que certamente dependerá do brilhantismo e da excelência.

O relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, que se tornou conhecido como "Relatório Jacques Delors", nome do seu coordenador, destaca a importância e o papel estratégico da educação dos alunos mais dotados, os chamados "dirigentes do amanhã". Diz o relatório: "Essa busca de excelência implica a elaboração de programas de ensino mais ricos, de acordo com os talentos e as necessidades diversas de todos os alunos, de modo a que todos realizem as suas possibilidades e que os talentos excepcionais possam ser mantidos e cultivados."

Um dos princípios iniciais da democracia pauta-se na capacidade de percepção das pessoas como diferentes umas das outras, nem melhores, nem piores, mas diferentes e, portanto, merecedoras de todo respeito. A tão proclamada igualdade nem sempre se aplica como fundamento democrático e a ausência desse entendimento tem sido um engano que muitos cometem.

A padronização tem resultado no florescimento de grandes injustiças e uma das maiores formas de violência refere-se à incapacidade de perceber nas pessoas suas identidades, suas histórias de vida, suas potencialidades, suas dificuldades, tratando-as como reproduções de modelos convencionados por alguns.

O congresso, que ora se realiza em Brasília, traz à tona, também, uma discussão que tem se intensificado nos encontros de educadores e pesquisadores interessados em encontrar nos espaços educativos a capacidade de mudança frente ao conservadorismo, às práticas discriminatórias, percebendo que é na valorização do indivíduo, do cidadão, que se fortalece e constrói o coletivo e a nação.

Infelizmente, algumas sociedade têm insistido, ao longo da história, na manutenção da monovisão que se expressa pela intransigência e impermeabilidade em relação tanto às realidades diversas como ao multifacetado e criativo mundo das crianças, jovens e adultos.

Nas malhas construídas nas relações de poder, as diferenças acabam se transformando e travestindo, de forma a se constituírem em um bloco justificador de discriminações. Conceitos de normalidade e anormalidade, comum e diferente misturam-se, enquanto os estereótipos "desejáveis" adquirem uma supremacia quase absoluta.

A realidade de um mundo que valoriza as diferenças é, hoje, uma das verdades mais latentes e questão que necessita ser captada e administrada pelas relações sociais das mais diversas instituições. As diferenças devem ser analisadas como produto da história, da ideologia e das relações de poder e constituem-se em fato incontestável.

A idéia de reconhecimento da complementaridade afasta a anulação de capacidades, valores e do próprio consenso. Não há acréscimos a partir de uma base hegemônica. As chamadas negociações e os diálogos entre diferentes realidades, na maior parte das vezes, se caracterizam como processos conflitantes, porém a pseudo harmonia que alguns pleiteiam deve ser criticamente analisada, uma vez que podem representar o empobrecimento e a castração de potencialidades indispensáveis não apenas ao avanço tecnológico, mas ao fortalecimento da construção de uma cultura para a paz.

* Jorge Werthein, Representante da UNESCO no Brasil, Coordenador do Programa UNESCO/MERCOSUL.

 

 

 

 

 

 

 

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