Você está aqui: Página Inicial Mídia Opinião Artigos Publicados do Representante da UNESCO no Brasil Ano de 1998 Educação de Adultos e Democracia

Educação de Adultos e Democracia

Artigo publicado nos Jornais: Folha de São Paulo em 07/06/1998; Diário de Pernambuco em 19/06/1998; O Popular - GO em 10/06/1998; A Notícia - SC em 11/02/2001.

* Jorge Werthein

Um dos pontos altos da Declaração de Hamburgo (14 a 18 de julho de 1997) sobre educação de adultos foi o reconhecimento de que a educação permanente não constitui apenas um direito de todas as pessoas, mas é uma das chaves para as aspirações de cidadania do Século XXI. Os desafios do próximo milênio, sobretudo os que se referem à urgente necessidade de reduzir a miséria e a exclusão social, requerem a instauração de um sistema permanente de educação de adultos, tanto para erradicar o analfabetismo, quanto para assegurar ao longo da vida condições de aquisição e renovação dos conhecimentos básicos indispensáveis.

Diante do quadro de desigualdades sociais predominantes em várias partes do mundo, a educação de adultos sobressai como estratégia insubstituível de proteção aos direitos humanos e de combate à pobreza, requisito fundamental para a construção democrática.

Os países da América Latina estão empenhados na tarefa de consolidar uma ordem democrática. Esse objetivo expressa um compromisso entre a sociedade e os governos e obriga a realização de esforços no sentido de repensar os diferentes segmentos da vida nacional nos termos dessa consolidação. É certo que a educação por si só não opera milagres. Todavia, ela destaca-se como mecanismo acelerador de mudanças em direção a um cenário democrático mais eqüitativo.

Para que a educação de adultos cumpra essa tarefa, ela precisa ser repensada com o objetivo de evitar enfoques parciais de sua amplitude e abrangência. Torna-se necessário atentar para as necessidades especiais da educação de adultos no contexto do seu trabalho, de suas representações e percepções da realidade e de suas condições de vida. Algumas ações de suplência na América Latina acreditam ainda que será suficiente repetir para os adultos uma versão comprimida dos conteúdos da escola destinada a crianças e adolescentes.

A educação de adultos deve seguir um caminho que leve em conta as experiências do homem adulto, que valorize e reconheça seus aprendizados tácitos. Não se trata de mudar somente a linguagem ou de dar aos conteúdos uma seqüência diferente. Trata-se, antes, de encontrar novos estilos de ação que associem o trabalho aos problemas sociais e políticos da vida cotidiana dos adultos.

Por outro lado, é preciso estar atento para a predominância do critério economicista na educação, que é uma tendência geral do fenômeno da globalização. A educação de adultos não pode dissociar formação de mão-de-obra de uma visão humanista das relações sociais e econômicas. Não pode dissociar competência de cidadania.

A educação de adultos, em sua vinculação com a democracia, precisa habilitar ao exercício público da participação e da solidariedade. A compreensão da língua nacional, o aprendizado da escrita, da leitura, o domínio dos símbolos e operações matemáticas básicas e o domínio dos códigos sociais são indispensáveis para o posicionamento do indivíduo face à sua realidade. É neste sentido que ela se insere na luta pela construção democrática e constitui uma das chaves para a cidadania do Século XXI.

A consolidação progressiva das estruturas democráticas implica formar a população para participar plenamente da vida política, social e cultural do país. Incorporando a essa participação consciente, segmentos cada vez mais amplos da população, contribui-se para fortalecer a democracia e garante-se o seu aperfeiçoamento.

A América Latina, que está cada vez mais próxima de universalizar o ensino fundamental para crianças, deverá seguir essa tendência, buscando, por um lado, a universalização do ensino médio e por outro, a educação permanente de jovens e adultos, política fundamental para que as aspirações democráticas se concretizem. Depõe a favor desse argumento o fato de que os adultos serão líderes e agentes de um processo educativo mais amplo do que a escola e que, na medida em que eles compreendam a importância e o valor da educação básica, vivenciem a questão educacional como uma necessidade e um problema, exigirão mais e melhores escolas para seus filhos.

Esse é o efeito reversível da educação de jovens e adultos e também a sua dimensão econômica como investimento.

* Jorge Werthein Representante da UNESCO no Brasil
Coordenador do Programa UNESCO/MERCOSUL

 

 

 

 

 

 

 

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