Você está aqui: Página Inicial Mídia Opinião Artigos Publicados do Representante da UNESCO no Brasil Ano de 1998 Cultura de Desenvolvimento - O Grande Desafio

Cultura de Desenvolvimento - O Grande Desafio

Artigo publicado nos Jornais: Correio Braziliense em 22/09/1998; O Popular - GO em 02/10/1998; Jornal do Commercio - RJ em 24/09/1998.

* Jorge Werthein

Muito tem sido dito sobre Cultura. O mesmo pode-se dizer em relação ao tema "Desenvolvimento". Mas a associação de Cultura e Desenvolvimento é bem menos comum. Normalmente, quando se pensa em desenvolvimento, a associação mais rápida e mais fácil que se faz é com desenvolvimento econômico.

De fato, sem crescimento econômico, as nações perdem qualidade de vida, segurança, poder, independência. No entanto, uma nação desenvolvida, rica, independente, poderosa é, antes de tudo, uma nação culturalmente pujante, com forte identidade cultural.

Buscar o desenvolvimento e esquecer a cultura é ter uma visão limitada. Afinal, antropologicamente falando, pode-se considerar cultura como expressão humana, como todo produto da mente humana. Dessa forma, economia, política, ciência também são cultura. A cultura, então, perpassa tudo. Está nas causas e nas conseqüências. Está nos pensamentos e nas ações concretas.

Portanto, é preciso dar visibilidade à verdadeira dimensão da cultura, isto é, reconhecer oficialmente o papel que a cultura já ocupa na sociedade.Isso significa mais do que incluir a cultura nos programas, propostas e atividades da administração pública ou da sociedade civil. Significa levar em consideração os aspectos culturais em todas as ações de domínio público. A cultura não pode e não deve estar a reboque da política, da economia, da ciência etc. Ela deve nortear as ações em todas essas áreas.

Dentro dessa perspectiva é que o "Encontro de Ministros da América Latina e do Caribe", realizado no Rio de Janeiro em setembro, prosseguiu a série de encontros regionais que destacam o papel da cultura e a colocam na agenda de discussões sobre o desenvolvimento. A conferência deu continuidade à "Conferência Intergovernamental de Estocolmo sobre Políticas Culturais para o Desenvolvimento", realizada em abril deste ano.

Na verdade, trata-se de um esforço de largo curso da UNESCO, iniciado na década de 80. Mais precisamente em 1987, a UNESCO instalou seu Decênio Mundial de Desenvolvimento Cultural, concluído em 1997, do qual se originou o relatório da comissão de mesmo nome, liderada por Jávier Perez de Cuellar. Esse relatório recebeu o título de "Nossa Diversidade Criadora" e vem servindo de referência para uma série de encontros temáticos que culminaram na Conferência de Estocolmo.

Esperamos que a repercussão do debate desse tema seja cada vez mais ampla e multiplicada pelas muitas discussões que cada um dos participantes dos encontros terá no seu âmbito específico de atuação. O ideal é que o tema seja incorporado definitivamente no modo de pensar e agir de um número cada vez maior de formadores de opinião, resultando em transformações profundas nas escolhas dos modelos de desenvolvimento de países e blocos regionais.

Em tempos de globalização exacerbada, ao ponto de se verem enfraquecidas, do dia para a noite, economias aparentemente potentes; a terra, os homens e mulheres, o trabalho, o saber acumulado, as emoções humanas, tudo isso passa a ser a única âncora confiável nessa deriva de crenças e concepções de civilização.

Mesmo com sua acuidade para detectar tendências, a UNESCO jamais poderia supor que, ao lançar o Decênio Mundial de Desenvolvimento Cultural, estaria apontando, com tanta precisão, um rumo, um norte em meio ao turbilhão desse final de milênio.

Plenamente convencidos de que esse é o caminho, interessam-nos, agora, os passos seguintes: experimentar, demonstrar, convencer, sacudir, abrir brechas, revirar certezas, rever formas enraízadas de colocar economia de um lado e sociedade de outro, concebendo projetos desenraízados dos lugares e dos saberes. Tudo isso está à nossa frente.

A idéia é estabelecermos uma pauta, buscarmos possíveis aliados, comunicarmo-nos para reforçar mutuamente nossos êxitos e conquistas. A UNESCO tem estabelecido a continuidade do tema "Cultura e Desenvolvimento" e, como parceira de cada um de seus 186 Estados-Membros nas suas práticas de governo, estará estimulando as conexões que criem uma trama de cumplicidade em todos os continentes.

O encontro no Rio é um exemplo dessa cumplicidade, estabelecida entre a UNESCO, o Ministério da Cultura e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), sintomática e positivamente reunindo um banco, um ministério e uma organização internacional de apoio à cultura.

* Jorge Werthein, Representante da UNESCO no Brasil, Coordenador do Programa UNESCO/MERCOSUL

 

 

 

 

 

 

 

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