Rota do Escravo

Artigo publicado no Jornal de Brasília em 19/08/1998.

* Jorge Werthein

Em setembro de 1994, portanto há quase quatro anos, a UNESCO lançou um projeto de pesquisa internacional sobre o comércio de escravos na África. A idéia era promover estudos e atividades sobre esse lamentável episódio da nossa história. O projeto recebeu o nome de Rota do Escravo.

A iniciativa partiu principalmente do Haiti e dos países africanos, como o Benin, onde, aliás, ocorreu a conferência na qual a UNESCO lançou formalmente o projeto. Curiosamente, foi o mesmo Benin que, séculos antes, abrigou um dos principais centros de comércio de escravos negros. Foi também para o Benin que retornou grande parte dos negros libertados, muitos deles oriundos do Brasil. Não por acaso, hoje muitas famílias de Benin têm nomes de origem brasileira.

Informações como essa nem sempre constam dos nossos livros de história. O projeto Rota do Escravo vem justamente resgatar, de forma mais crítica e sistemática, o trabalho de tantos historiadores, pesquisadores, antropólogos, que buscam reavaliar o aviltante episódio histórico do comércio de escravos africanos e tentar compreender melhor os fatos que o envolveram. Assim, também é lançada luz sobre os reflexos desses fatos na atualidade.

Portanto, seguir a rota dos escravos é mais do que se aprofundar nas raízes da escravidão. É desbravar uma nova rota, que possa apontar para um futuro mais igualitário, onde compartilhar seja mais importante que conquistar. Como diz Federico Mayor, Diretor Geral da UNESCO, o essencial é enfrentar o desafio do pluralismo cultural. As diferenças de origens étnicas devem ser bem-vindas e bem vistas em um contexto no qual a riqueza criada pelos homens e o patrimônio cultural da humanidade sejam compartilhados por todos.

No Brasil, onde a cultura africana deixou marcas tão profundas, o "Seminário Internacional Rota do Escravo", realizado recentemente no Senado Federal, em Brasília, foi uma oportunidade ímpar de refletir também sobre a riqueza da diversidade cultural. Os africanos que cruzaram o Atlântico rumo ao Novo Mundo trouxeram uma bagagem cultural essencial para a formação da cultura brasileira.

Hoje, os reflexos da contribuição cultural africana estão em toda a parte, especialmente nas artes. É inconcebível uma arte brasileira sem traços da chamada africanidade. Isso vale sobretudo para a música. A MPB sem seu componente africano é órfã, assim como a dança, a expressão corporal, o teatro, a pintura, o desenho, a poesia, a literatura feita no Brasil. Refiro-me a todos os artistas que pensam, cantam, dançam, interpretam e pintam o Brasil de todas as cores, como, por exemplo, Gilberto Gil, artista para a Paz da UNESCO.

É nesse Brasil multicultural, complexo e intrigante que queremos ver a Rota do Escravo redescobrir facetas muitas vezes esquecidas e revalorizar relações profundas entre culturas hoje complementares.

* Jorge Werthein é Representante da UNESCO no Brasil e Coordenador do Programa UNESCO/MERCOSUL.

 

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