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* Jorge Werthein
A criação da UNESCO, em 1945, ao término da Segunda Guerra Mundial, pautou-se na educação para a paz, a tolerância, a solidariedade e os direitos humanos em geral. Não poderia ser diferente. A paz duradoura é premissa e requisito para o exercício de todos os direitos e deveres do homem. A paz em si deve ser considerada como mais um direito do homem e do cidadão.
Não por acaso, na abertura da 29ª Conferência Geral da UNESCO, realizada em Paris, de 21 de outubro a 12 de novembro passado, o diretor-geral da organização, Federico Mayor, fez um apelo para que se estabeleça um novo contrato moral para garantir a paz no mundo. Parafraseando-o, a UNESCO tem várias tarefas, mas uma única missão: a paz.
A UNESCO sempre esteve à frente na luta por uma cultura de paz e não-violência. Por iniciativa da UNESCO, o ano de 1995 foi proclamado "Ano das Nações Unidas pela Tolerância". O principal objetivo era dar maior impulso à educação para a tolerância, como base para a compreensão intercultural, a democracia e a paz. E, para o ano 2000, a ONU já estabeleceu o "Ano Internacional de Cultura para a Paz".
Desde 1995, a UNESCO vem organizando eventos, programas e projetos voltados para o desenvolvimento do respeito mútuo e da cooperação entre as nações e os povos, para incentivar os padrões de conduta democráticos na vida cotidiana, para passar, como afirma Federico Mayor, "de uma cultura de guerra e violência para uma cultura de paz e não-violência." Por isso, a UNESCO foi indicada pela Assembléia Geral das Nações Unidas responsável pelo seguimento e coordenação das ações voltadas para a tolerância e cultura de paz.
Um exemplo desse tipo de ação foi a vinda ao Brasil, em abril deste ano, dos escritores Nadine Gordimer, Prêmio Nobel de Literatura de 1991, e Mongane Wally Serote, que também estiveram em Montevidéu e Buenos Aires discutindo o tema "Tolerância: o papel dos escritores na luta por uma cultura de paz".
As trocas desiguais entre culturas têm acarretado a morte do conhecimento da cultura subordinada e, portanto, de seus grupos sociais, o que, sem dúvida, é uma agressão ostensiva aos direitos humanos. A tolerância entre os povos deve respeitar as diversidades culturais, a riqueza única de cada cultura.
A educação para os direitos humanos e a tolerância, adaptada para crianças e adolescentes, do nível primário ao universitário, permite a formação de gerações futuras que respeitem esses direitos e sejam tolerantes quanto às diversidades e capazes de resolver conflitos potenciais de maneira pacífica. A meta deve ser sempre a harmonia entre indivíduos, grupos, povos, nações. Essa é a base da democracia e da paz.
É fundamental que a educação propicie uma formação particularmente sólida em matéria de direitos humanos e tolerância, visando alcançar uma mudança não só de mentalidade, mas também de comportamento. Essa mudança permitirá melhor proteção dos direitos humanos, da lei em geral, das liberdades fundamentais e do melhor exercício da justiça.
A própria Constituição da UNESCO, cujo 50º aniversário coincidiu com o "Ano Internacional pela Tolerância", afirma que "se a guerra nasce na mente de homens e mulheres, é na mente de homens e mulheres que devem ser erguidos os baluartes da paz." Hoje em dia, o desafio é encontrar meios de mudar definitivamente atitudes, valores e comportamentos a fim de promover a paz, a justiça social, a segurança, a tolerância e os direitos humanos.
* Jorge Werthein é representante da UNESCO no Brasil e Coordenador do Programa UNESCO/MERCOSUL. |