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* Jorge Werthein
Recentemente, tivemos a oportunidade de divulgar os resultados de uma pesquisa realizada no Plano Piloto de Brasília, fruto de uma parceria entre diversos organismos que compõem o sistema das Nações Unidas no Brasil - PNUD, UNESCO, UNICEF, OPAS/OMS, UNDCP, UNFPA -, o Governo do Distrito Federal, o Governo Federal, por meio de sua Secretaria dos Direitos Humanos e o jornal Correio Braziliense. O foco do trabalho foi a juventude e a violência dos jovens no Plano Piloto do Distrito Federal. Julgo oportuno realizar algumas considerações sobre o tema.
O incremento da violência, em suas diversas formas de manifestação, não é um fenômeno restrito a Brasília, nem sequer ao Brasil; é uma questão que tem dimensão planetária. É um fenômeno que atinge tanto os países desenvolvidos quanto os subdesenvolvidos, os emergentes e os submersos, os que antigamente eram considerados um pacífico "oásis" e os que se apresentavam como radicalmente intransigentes.
Sinal evidente disso encontramos na Declaração de Princípios sobre a Tolerância, proclamada e assinada em novembro de 1995 pelos Estados membros da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura - UNESCO. Diz uma de suas justificativas: "Alarmada pela intensificação atual dos atos de intolerância, violência, terrorismo, xenofobia, nacionalismo agressivo, racismo, anti-semitismo, exclusão, marginalização e discriminação (....) adotam e proclamam solenemente a seguinte Declaração de Princípios sobre a Tolerância (.....)".
Inclusive dentro do contexto latino-americano, considerado como uma das regiões mais violentas do planeta, o Brasil, com uma taxa em torno de 20 homicídios em 100.000 habitantes no início da presente década, não apresentava uma situação excessivamente alarmante, quando comparado, por exemplo, com a Colômbia, com uma taxa de 90 em 100.000, ou Jamaica, com 26 em 100.000. Mas também é verdadeiro que existem países do continente com uma taxa bem menor que a brasileira (Chile, 5 em 100.000; ou Costa Rica, 4 em 100.000).
Se tomarmos como referência exclusiva o Brasil, a situação do DF também não pareceria ser extrema, se comparada, por exemplo, com as taxas que nos mostram Rio de Janeiro ou São Paulo. É verdade que temos uma situação alarmante e preocupante, mas também é verdade que não é nem específica nem exclusiva. Mais do que isso, a violência parece se apresentar como a síndrome de nossa nova modernidade excludente.
Alguns dos resultados da pesquisa, quando tomados de forma isolada e descontextualizada, podem levar a pensar que estamos diante de uma nova "juventude perdida", sem esperanças e desejos. Mas as evidências coletadas na pesquisa parecem indicar precisamente o contrário: 91% dos jovens estão estudando e muitos deles já na universidade. Essa situação, inédita no país, é típica de regiões culturalmente avançadas. Os jovens pesquisados também evidenciaram uma consciência ética e de rejeição de facilidades e espertezas difícil de encontrar, inclusive em nosso mundo adulto.
Diferentemente de outras pesquisas na área da juventude, que centram sua visão nos jovens em situação de risco ou francamente "violentos" (infratores, drogados, participantes de gangues, jovens de rua, etc.), esse estudo, ao tomar como base de análise o universo de jovens do Plano Piloto do DF, permitiu vislumbrar uma dualidade, esta sim, altamente preocupante. Nossos jovens são, ao mesmo tempo, vítimas e algozes. Sofrem as conseqüências de um contexto precário onde a violência se pulveriza e banaliza, alarga sua abrangência e incidência, penetra e permeia o cotidiano. Para enfrentar essa violência, o caminho escolhido pareceria o da maior violência.
Cabe a todos nós, neste momento, encontrar os caminhos da superação dessa espiral. Fundamentar e expandir, por todos os meios disponíveis, uma cultura da paz e da tolerância. E para isso deveremos alargar os mecanismos de participação dos jovens na vida cidadã, legitimando espaços de exercício da cidadania, o que significa participação nas decisões, ser escutado, decidir sobre o próprio destino. Como declarou um pai na pesquisa: "(...) a gente tem de levá-los a sério. O que eles falam é muito válido e o que acontece é que, ainda hoje, não se ouvem os adolescentes". Ouvir, não decidir por eles, mas sim com eles.
* Jorge Werthein é Representante da UNESCO no Brasil e Coordenador do Programa UNESCO/MERCOSUL. |